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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Ele falava com as flores

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

(Da série "Diálogos Impossíveis")

Albert Speer foi o arquitecto de Hitler e o ministro dos Armamentos do III Reich durante a II Guerra Mundial. Foi ele o responsável pela deportação de milhões de pessoas para trabalho escravo na máquina de guerra nazi. Julgado em Nuremberga, foi condenado a 20 anos de prisão. Entrou na prisão de Spandau, em Berlim, com 42 anos e saiu com 61. A prisão era administrada, em regime rotativo, por militares americanos, ingleses, franceses e russos e especula-se que a sentença de Speer só não foi encurtada porque os russos não queriam perder a única presença que mantinham em Berlim Ocidental, na guarda compartilhada de Speer.

Durante o seu internamento, Speer leu, escreveu e cuidou do jardim da prisão, dedicando cada vez mais tempo e atenção às flores e à limpeza dos seus canteiros. Num diário, escreveu: "Anos atrás precisei organizar a minha sobrevivência aqui dentro. Isto não é mais necessário. O jardim se apossou completamente da minha vida."

Speer foi libertado em Setembro de 1966. Pode-se imaginar que no seu último dia de internamento tenha passeado pelo jardim da prisão, dando os últimos retoques nos canteiros que abandonaria no dia seguinte. Talvez tenha até pensado em ficar, ou em pedir licença às autoridades para voltar lá regularmente e continuar os seus cuidados. Os americanos dariam boas risadas do seu pedido. Os franceses o achariam poético. Os ingleses o ignorariam. Os russos o negariam. Speer talvez tenha falado com as flores naquele seu último passeio.

- Adeus, minhas queridas.

- Adeus, doutor.

Não o surpreenderia ouvir as flores falando. Elas o tinham ajudado a não enlouquecer em Spandau. Era justo que reivindicassem um pouco de loucura, no final, para poderem despedir-se do seu benfeitor. Só um pouco.

- Vou sentir saudades de vocês.

- E nós do senhor.

- Fui um bom jardineiro, não fui?

- Um óptimo jardineiro.

- Aproveitei a minha experiência como organizador. Este sempre foi o meu forte.

- Deu para notar. Este é, sem dúvida, o jardim mais bem organizado da Europa.

- Arranquei a erva daninha. Adubei quando era necessário. Podei na hora certa. E tudo de acordo com um plano. Com uma visão do que um jardim deveria ser. Uma visão superior. As plantas precisam de alguém com uma visão superior para lhes revelar o seu destino. E o resultado aí está. Vocês. O meu orgulho.

- Nós também nos orgulhamos daquilo que o senhor fez.

- Eu sou um homem bom, não sou?

- Um homem maravilhoso.

- Mas, doutor, explique-nos só uma coisa. Porque é que um homem maravilhoso como o senhor ficou 20 anos na prisão?

- Foi um mal-entendido.

- Como assim?

- Nós tínhamos um plano. Um pouco como o meu plano para este jardim. Era isso: o nosso plano era que a Europa fosse um jardim como este. Um jardim organizado. Livre da erva daninha do bolchevismo. Adubado com o sangue honrado dos seus mártires e o esterco dos seus inimigos naturais. Podado das raças desnecessárias que ofuscavam a sua beleza e atrasavam a sua glória. O nosso era um projecto estético. Não foi entendido.

- O senhor era um jardineiro e foi confundido com um monstro.

- Exacto. Preferiram dar mais importância à dor passageira de alguns milhões de pessoas do que à estética. Como se arrancar erva daninha fosse um crime! Vocês, não. Vocês se submeteram à minha visão superior, à minha tesoura e à minha espátula, sem dar um "ai".

- Sabíamos que era pela nossa maior glória.

- Vocês entenderam-me! Um jardim sem uma visão superior não é um jardim, é uma floresta. É o caos. Eu salvei-as da desordem. Infelizmente, não pude fazer o mesmo com o resto da Europa.

- E agora, doutor? O que será de nós?

- Não sei o que farão com vocês. Eu me preocuparia se aparecerem russos com ancinhos. Os russos não têm nenhum senso estético.

- Adeus, doutor.

- Adeus.

Texto publicado na edição do Actual de 19 de Junho de 2010