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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Dois solilóquios

Na lista das coisas das quais a morte o livraria, Hamlet inclui, entre "disprized love" (amor desvalorizado) e "the insolence of office" (algo como a arrogância do poder), "the law's delay", a demora da lei. A indolência da Justiça daquele tempo já fazia as pessoas pensarem em suicídio, não vamos ser tão rigorosos com a nossa. Hamlet só não se mata de medo do que encontraria no país desconhecido da morte, do qual nenhum viajante jamais voltou a não ser como fantasma. Acha melhor não trocar desgraças conhecidas por pavores novos. Outro personagem da peça, o rei usurpador Claudius, também teme o que o espera do outro lado, mas por outra razão. Ele matou o irmão e ficou com as suas duas coroas – seu reino e sua viúva – e sabe que a justiça que certamente receberá no céu não é tão maleável como a da terra. No solilóquio em que prevê a condenação da sua alma, Claudius lamenta que ela não venha a ter o privilégio que ele tem em vida e faz um resumo deste poder cuja eloquência e exactidão resistiu aos tempos, mesmo em rápidas traduções como esta:

"Nas correntes corrompidas deste mundo

A mão cheia de ouro do ofensor compra a justiça

E muitas vezes é o produto da ofensa

Que a paga. Mas não é assim lá em cima."

Quer dizer, no Além não tem arreglo. E vá tentar subornar o Juiz.

Nem Hamlet nem Claudius duvidam que exista algo depois desta vida. Hamlet imagina a morte como um longo sono, e o que detém sua adaga é a perspectiva de que tudo que atormenta sua vida voltará a atormentá-lo numa noite interminável de pesadelos. Já o que mais assusta Claudius na morte é justamente o contrário de uma das razões para desesperar da vida na lista de Hamlet: a perspectiva de uma justiça rápida e incorruptível lá em cima. Os dois temem a retribuição, mas suas almas – que, segundo a trama da peça, chegam ao céu quase juntas – vão para nichos diferentes, classificados por culpa. Hamlet pagará pelos seus pecados modernos, pelo instinto edipiano que mal compreende, por ser o primeiro indagador existencial da história da literatura. Claudius pagará por pecados velhos, pelo crime mais antigo de todos, o fratricídio, e pela ambição. Mas no fim é o solilóquio de Claudius, o seu ser ou não ser castigado depois da morte sem recurso à propina e ao habeas-corpus, ou, no caso, habeas-alma, o mais relevante e actual dos dois. No Brasil é por onde mais passam as correntes corrompidas deste mundo.

Robinho e o Paradoxo

Alguém já disse que o rococó é o barroco que não soube onde parar. Todos os estilos correm o risco de descambar para o excesso, e saber o ponto em que começa o excesso é difícil, como acertar o ponto do pudim. Quando é que o discurso político deixa de ser democrático e fica populista, ou passa de populista a demagógico? Qual o parâmetro para distinguir um estilo lírico de um estilo preciosista, o sensível do piegas, o experimental do meramente pretensioso ou – seguindo-se a máxima do Mário Quintana, segundo a qual estilo é uma dificuldade de expressão – do simplesmente incapaz? Muitos escritores novos dizem que seu maior problema é saber por onde começar. Não é. O maior problema de quem escreve (ou compõe, ou interpreta, ou, principalmente, discursa) é saber onde parar.

O futebol moderno criou um paradoxo. Para ser correctamente jogado ele precisa inibir a individualidade do jogador e sacrificar seu brilho pessoal pela organização solidária. Mas as defesas ficaram tão organizadas que só podem ser vencidas pela iniciativa individual – ou seja, pelo proibido. Assim, cada jogador de ataque com a bola no pé é um artista obrigado a decidir, instantaneamente, até onde ele pode ir antes que seu brilho vire brilhatura, o seu drible deixe de ser na medida e vire excessivo – enfim, que ele passe do barroco ao rococó e sua iniciativa individual seja chamada de falta de espírito de equipa.

Eu sei, jogada pessoal espectacular é a jogada pessoal condenável que deu certo, e a diferença entre um lance de génio e apenas mais um drible estéril muitas vezes é só uma questão de milímetros. Seja como for, um atacante como o Robinho, da selecção brasileira, passa o jogo inteiro acossado pelo paradoxo, tendo que considerar questões de forma, função, proporção e equilíbrio. Em vez de um intuitivo alegre, é um esteta de chuteiras, preocupado, antes de mais nada, em não destoar do todo. E, porque é o mais capacitado a abrir defesas fechadas com sua habilidade e mobilidade, acaba sendo um lembrete constante do paradoxo inibidor. Passamos o jogo inteiro esperando que Robinho ou um similar entre driblando até dentro do golo, numa jogada decididamente antimoderna. Dane-se a estética, a verdade é que queremos, no ataque do nosso time, alguém que não saiba onde parar!

Luís Fernando Veríssimo