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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Bom senso

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

Na velha questão da importância relativa de genética e cultura - conta mais o que está nos genes de cada um ou o que é adquirido do meio? -, é preciso não esquecer que um nobre inglês criado por macacos deu no Tarzan, enquanto não há notícia de que um macaco criado por nobres ingleses tenha dado em alguma coisa.

DANDO FÉ

Um dos mistérios da História é a docilidade do imperador asteca Montezuma diante dos conquistadores espanhóis liderados por Cortez. Diz a lenda que os astecas ficaram tão embasbacados com os cavalos dos invasores que desistiram de reagir. A verdade deve ser outra. Junto com a esquadra de Cortez viajava um notário real, e a posse das novas terras para a Espanha obedeceu a todos os trâmites legais - da Espanha. Os nativos ficaram assombrados menos com os cavalos dos espanhóis do que com a sua hipocrisia. Uma cultura fundada na cerimónia tinha o seu primeiro encontro com uma cultura legalista, um império de gestos rituais rígidos encontrava um império de palavras manejáveis, e os astecas sucumbiram não às armas espanholas mas ao jargão jurídico. Em toda a conquista da América pelos espanhóis repetiu-se a formalidade da leitura do "Requerimento", que proclamava a posse da terra pela Coroa espanhola e a transformação dos nativos em seus súbditos. Se os nativos não estivessem presentes na leitura não importava, o notário real estava lá e dava fé. Tudo começou com Cristóvão Colombo, que proclamou formalmente diante dos índios caribenhos que tomava posse das suas ilhas para o rei de Espanha e depois escreveu: "Y no me fué contradicho." Ninguém o contradisse porque nenhum nativo tinha a menor ideia do que ele estava dizendo. Mas isto é apenas bom senso, algo sem nenhuma majestade histórica. E "y no me fué contradicho" ficou como a frase-síntese de toda a aventura colonialista na América.

SIMPLIFICANDO

A idade obriga-nos a ir rarefazendo - se é que existe o termo - os nossos gostos.

A definir as nossas preferências e a concentrar todas numa só letra, para simplificar. Por exemplo, o B. De Bach, Bordeaux e mulheres de Boa vontade.

SUSPENDENDO

Sir Arthur Conan Doyle foi o inventor de Sherlock Holmes, a personificação da racionalidade e da dedução lógica, cujas histórias sempre envolviam o triunfo da razão sobre alguma forma de mistificação. Mas Doyle, ao contrário do seu personagem, acreditava no sobrenatural. Ele e o famoso mágico Harry Houdini certa vez decidiram contactar o espírito da falecida mãe do mágico, numa sessão mediúnica. A mulher de Doyle foi a médium. A mãe de Houdini foi contactada e ditou uma mensagem em inglês para o filho, que Lady Doyle transcreveu, em transe. Houdini agradeceu e não teve coragem de dizer aos Doyle que a sua mãe jamais aprendera o inglês e só falava ídiche - um detalhe que Doyle saberia se tivesse encarregado Holmes de uma elementar investigação prévia. A metafísica sempre depende de uma suspensão do bom senso, que no caso de Doyle tinha nome e sobrenome.

Texto publicado na edição do Actual de 15 de Maio de 2010