Siga-nos

Perfil

Expresso

Luís Fernando Veríssimo

As noites de luar

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

- Uma guerra nuclear: você é o único sobrevivente. Ou uma epidemia mundial: só você se salva. E aí?

- Aí, depende...

- Depende do quê?

- Depende de onde eu estaria, por exemplo.

- Uma cidade grande. Qualquer cidade grande.

- Só eu? Mais ninguém?

- Só você.

- Bichos?

- Nenhuma forma de vida. Só você. E então?

- Então, depende...

- Do quê?

- Teria electricidade, por exemplo, para conservar os alimentos? Ou eu viveria só de não-perecíveis?

- Sem electricidade. Sem luz. Sem aquecimento. Sem comida congelada. Sem gás.

- Quer dizer que eu teria de fazer fogo esfregando um pauzinho no outro?

- Ou entrando em supermercados e pegando caixas de fósforos.

- É mesmo! Eu poderia entrar onde quisesse e pegar o que eu quisesse, sem pagar e sem disparar o alarme na saída!

- Exacto. E sem ser gravado pelas câmaras de segurança.

- Dando bananas para as câmaras de segurança!

- Isso.

- E atravessando a rua fora da faixa!

- Também.

- Estou começando a gostar. Mas, vem cá, eu estaria completamente sozinho?

- Completamente.

- Sem nem um cachorro? Naquele filme do Will Smith, ele tinha um cachorro.

- Sem nem um cachorro.

- Mulher, então...

- Nem pensar.

- Pode ser feia. Numa situação destas, não se escolhe.

- Nem pensar. Em compensação, você poderia andar na rua à vontade... Entrar em restaurantes finos só de cuecas...

- Uma coisa que sempre quis fazer.

- Fazer xixi a céu aberto, onde lhe desse vontade. Até em estátua de general.

- Bacana...

- Você seria inteiramente livre.

- Mas solitário.

- Mas livre. Nossos limites são os outros. Você viveria sem os outros. Portanto, sem limites. Livre.

- Como o Robinson Crusoe na sua ilha?

- Um Robinson Crusoe sem o Sexta-Feira e com um suprimento inesgotável de fósforos. Exacto.

- Como Adão no paraíso.

- Perfeito. Um Adão sem nenhuma perspectiva de Eva. Primeiro e único.

- E as noites de luar?

- O quê?

- E as noites de luar?

- O que tem as noites de luar?

- Iria compartilhá-las com quem?

- Está bem. Esquece. Eu estou lhe oferecendo a liberdade de um mundo vazio, de um paraíso restaurado, e você vem com pieguice. Esquece.

- Só o que me faltaria seria poder comentar as noites de luar. Um par de ouvidos para me ouvir, um par de olhos compreensivos para concordar comigo. Só.

- Está bem, está bem. Você pode ter um cachorro.

Texto publicado na edição do Actual de 12 de Junho de 2010