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Expresso

Luís Fernando Veríssimo

Acolchoado

Luís Fernando Veríssimo (www.expresso.pt)

- Nem te conto...

- O quê?

(O casal estava no carro, voltando de uma festa na casa de amigos. Marjori e Mário Luiz, idade entre 35 e 40, classe B, B e meio, por aí.)

- Eu fui no banheiro...

- Eu vi.

- Você viu? Você passa o tempo todo me cuidando, Mário Luiz?

- Não, Marjori. Você tinha bebido e eu achei que estivesse passando mal.

- Eu quase não bebi e não estava passando mal. Fui fazer xixi.

- Está bem, está bem. O que é que você ia contar?

- Eu estava perfeitamente sóbria. Aliás, acho que era a única pessoa sóbria na festa.

- Está certo! Agora conta.

- Você sabe que o assento da privada no lavabo da Celinha é acolchoado?

- Acolchoado?

- E não é só isso. O acolchoado é zebrado.

- Como zebrado?

- Zebrado! O tecido que cobre o acolchoado tem um padrão de zebra. Preto e branco.

- E daí?

- Como "e daí", Mário Luiz? O que é que isso te diz?

- Não me diz nada. Acho até bem bolado. Não há razão para a gente não ficar confortável quando...

- Mário Luiz! Era no lavabo. Se fosse no banheiro da suíte deles, vá lá. Não me interessa o que a Celinha e o Germano têm no banheiro deles. Mas isto era no lavabo, no banheiro das visitas. A Celinha estava fazendo uma declaração pública. Aquilo é uma mensagem ostensiva da Celinha para quem vai na casa dela.

- Então, é uma gentileza dela para as visitas, para o bumbum das visitas.

- Você não acha um acinte? Quase uma provocação?

- Porquê?

- Francamente, Mário Luiz! Eu me lembro quando você ficou indignado com o cortador de cabelinho do nariz que a Flávia trouxe da Europa para o Mingão.

- O cortador de cabelinho do nariz era de ouro. O assento da privada é de quê? De espuma? No máximo, é de espuma...

- E o simbolismo da coisa?

- Simbolismo de quê? Da decadência do Ocidente? Do ponto em que chegou a alienação da elite brasileira? E você não pensou que podia ser kitsch de propósito?

- O que é kitsch de propósito?

- É quando alguém faz alguma coisa como forrar o assento da privada com um acolchoado zebrado sabendo que é kitsch e esperando que os outros entendam que o kitsch é de propósito e achem graça. Você simplesmente não entendeu o assento da privada da Celinha, Marjori.

- Como você mudou, hem, Mário Luiz...

- Eu mudei?

- E pensar que nós nos conhecemos num congresso de estudantes em Cuba.

- Marjori...

- Francamente, Mário Luiz!

Texto publicado na edição do Actual de 8 de Maio de 2010