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Expresso

José Manuel dos Santos

Verão

O calor é uma fera enfurecida que se lança a nós com os seus dentes claros e mordazes. O corpo foge-nos, mas não há lugar para onde essa fuga vá. Sob a solidão do Sol, o que vem dele é uma treva de luz que fere e cega. Tudo levita num repouso agitado, denso, ameaçado. No cume do calor, quando nem para os mortos há sombra, o mundo é uma fotografia tremida, um espelho embaciado, um lodo lento. As coisas falam todas a mesma língua e os seus nomes lançam-se uns contra os outros. Nessa hora, o chão é um solo de bailado que apenas aceita ser tocado por pés que correm. Estamos na grande estação do desejo e passa um vento vermelho sobre a Terra. Agora sentimos que os sentidos se alucinam. Se o Inverno é a estação da ausência dos deuses, o Verão é a estação da sua presença asfixiante. Na tradição judaico-cristã gerada no livro do profeta Ezequiel, a cada evangelista corresponde um ser vivente e voador que o simboliza. Nesse voo de quatro rostos, São Marcos tem o leão alado; São Mateus, o anjo; São Lucas, o boi alado; São João, a águia, que fita o Sol de frente, simbolizando aquele que olhou mais firme e mais fundo o mistério divino. O evangelho de São João é o evangelho do Verão: nele se diz que, no princípio, era o Verbo e que o Verbo era a luz que ilumina o homem, fazendo-se carne nele. Quem olhou o princípio de frente, olha também o fim face a face. A revelação de São João começa na luz e acaba no fogo, em Patmos, na visão apocalíptica do grande lago em chamas e da Segunda Vinda.

Deus e o Verão são "post-its" do homem: colam-se a ele, marcam-no, lembram-lhe o que ele esquece, desassossegam-no. O Verão é a estação das idas e das vindas, dos passados e dos futuros. No passado, está o nosso princípio e, no futuro, o nosso fim. O Verão é princípio e regresso ao princípio, diferença e repetição, memória desperta e recuperada. Todas as praias se situam na infância, e nós, quando vamos para o mar, somos adolescentes a correr para a criança que fomos. Sophia de Mello Breyner conta: "Aos doze anos, descobri a Odisseia. Eu passava o Verão numa praia do Norte e, para mim, era a época da felicidade, das férias, da praia, do mar, do andar descalça. Descobri Homero no Inverno e tive a sensação que, de repente, se fez Verão." Mas o Verão é também o fim das noites que amanhecem e dos seus amores fugidios. E o fim das férias grandes, que são sempre o tempo do coração. Ruy Belo é um grande poeta do Verão, aquele que escutou a sua música e que sabe, proustianamente, que só há paraísos perdidos. E esses estão entre o recomeço eterno do mar e o esplendor intermitente do Sol. O mar banha esta poesia, fazendo-se símbolo de um eterno retorno que nos transporta no tempo e traz o tempo connosco. Nela, o amor é a felicidade de o esperar, ou de o lembrar. Eu digo os versos visíveis de Ruy Belo e eles dizem-me o meu passado presente e o meu presente futuro: "Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar/ caminha para o mar pelo verão." Digo mais: "À sombra dos plátanos as crianças dançarão/ e na avenida que houver à beira-mar/ pode o tempo mudar será verão." Continuo a dizer: "É triste no outono concluir/ que era o verão a única estação."

José Manuel dos Santos