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Expresso

José Manuel dos Santos

Saudade

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Depois da sua morte, a chuva do tempo não pára de cair sobre mim. Conto os dias a partir daquele dia deserto, daquelas horas de um passado que não passa, daqueles minutos agudos como agulhas. Desde então, conto o tempo para o voltar contra ele, para o negar, para o anular, para regressar ao tempo antes desse tempo. Esse dia foi o de um Big Bang ao contrário.

A minha mãe morreu faz um ano: 7 de Junho de 2009, duas horas da tarde. Desde então, não paro de a recordar, de a reter, de a reaver, de a recuperar, de a restituir, de a reviver, de a reerguer. Estes 12 meses têm sido a serigrafia de um original. Nele, vejo o seu rosto em todas as estações interiores. Vivi este ano como se vivesse o anterior em reverso, em negativo, em ausência. Estou nos lugares que foram dela. Toco os objectos que eram seus. Recordo os acontecimentos que foram nossos. Esse caminho não tem regresso. É por isso que se faz. Repete-se, mas já não é o mesmo. Gasta-se. Gasta-nos.

A sua morte foi num domingo. Aconteceu depois de um mês de sustos, medos, melhoras, agravamentos. Antes, ela estava magnífica na sua velhice feliz, lúcida e astuta. De repente, tudo mudou. Houve uma dor e o que se seguiu. Antes, ela estava intacta. Nesse mês, foi sendo atacada, atingida, abalada, deteriorada. Esteve mal, melhorou, piorou, melhorou, piorou. Depois, piorou sempre. Foram dias e noites de ansiedade e de espera, de aflição e de alívio, de desespero e de alucinação. Todos os sinais foram adivinhados, perscrutados, interpretados. Todos os momentos foram guardados, registados, retidos. Nesse tempo, eu e a minha irmã vivemos nos hospitais. Mesmo quando lá não estávamos, era lá que estávamos. Depois de termos aí passado o dia, não nos deitávamos sem telefonar para saber. E, assim que nos levantávamos, era para o hospital que telefonávamos para saber mais. Mesmo muito mal, ela apercebia-se do nosso cuidado, da nossa insistência, da nossa obsessão. Um dia, na unidade de cuidados médicos onde estava, imóvel, o telefone não parava de tocar. Quando a enfermeira deu um passo para o atender, ela disse-lhe: "São os chatos dos meus filhos." E riu-se. A enfermeira, quando nos atendeu, repetiu a frase e o riso. E ria também. E nós ouvíamos por detrás um novo riso da minha mãe.

Os médicos e os enfermeiros suportavam-lhe tudo, mesmo as impaciências, as queixas, as exigências, as revoltas. Eram vencidos pela inteligência, pela graça, pela insubmissão, pela emoção dela. Uma tarde, percebeu que podia acontecer o pior e falou-me da sua morte. Foi directa, clara, concreta, concisa. Depois, continuou a falar da vida. Outro dia, poucos dias antes de morrer, estava muito mal. Era madrugada. A noite tinha-lhe sido horrível. Ela conseguiu, na penumbra que a cegava, marcar de cor o meu número no telemóvel que mantinha à cabeceira. Em minha casa, o telefone tocou junto a mim, dentro de mim. Acordei com o coração a bater contra o peito. Ouvi a sua voz e percebi, pela primeira vez, que já estava atravessada pelo timbre da morte. Era uma voz desnivelada, mais grave, mais surda, mais vibrada - e o seu ritmo tinha mudado. Ela disse: "Pensei que morria esta noite, sem me despedir de ti e da tua irmã. Estava tão triste por isso." Durante o dia melhorou. Mas no dia seguinte piorou. E, nos dias seguintes ao dia seguinte, piorou sempre mais - até morrer. Era domingo e estava calor, um calor que asfixiava, que mordia. O médico telefonou e disse-me: "O coração da sua mãe está a falhar." Nós corremos para o hospital. Sabíamos que a encontraríamos morta. Encontrámo-la morta. Vimo-la. Ela estava inclinada sobre a sua morte. Era como se ainda sorrisse para nós - com um sorriso leve, mas também com um sorriso triste, por ter morrido. Era como se tivesse morrido cheia de saudades de nós.

Antes desses dias, houve os dias felizes. Ela olhava para mim - e eu era eu. Lembro-a teimosa, obsessiva, às vezes impossível. Lembro-a prudente, prevenida, perspicaz. Lembro-a íntegra, inteira, de um só rosto, de uma só vontade. Lembro-a árdua, ardente, arrebatada de amor por nós. Lembro-a nervosa, ansiosa, mimada: não se lhe podia dizer não. Lembro-a arguta, adivinha. Percebia tudo, previa tudo, prenunciava tudo. Gostava de ouvir histórias. Gostava de contar histórias. Eu contava-lhas. Ela contava-mas. Lembro-a, à varanda da casa, à minha espera, sempre à minha espera. Lembro-a a despedir-se - e mesmo quando se despedia já estava à minha espera.

Agora, vivo num tempo sem ela. Neste tempo sem ela, a sua ausência queima. Mas, às vezes, parece estar tão presente como antes. Porque, para os que a amámos, para os que a amamos, continua a ser uma origem, um princípio, um amanhecer. Agora, olho o retrato dela, o último. Sentada, como era seu hábito, no sofá da sala, sorri. Oiço-a dizer de novo: "Fico sempre mal nas fotografias." Era verdade. Mas nesta está bem. Eu sorrio para o seu sorriso - e a morte deixa de existir. Depois, só a morte existe.

jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 5 de Junho de 2010