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Expresso

José Manuel dos Santos

Pinamonti

Como o arqueiro, o encenador aponta ao alvo sem saber se o vai alcançar. Para ele, acertar só pode ser tornar a obra o que ela é. Graham Vick está a encenar, de Wagner, O Anel do Nibelungo, numa produção original do São Carlos. O que já vimos - O Ouro do Reno e, agora, A Valquíria - obriga-nos a falar de um memorável acerto. Escrevo após ter assistido a esse milagre total, e se dos meus ouvidos ainda não se ausentou o grande rio de sons, ora caudaloso, ora sereno, dos meus olhos também não se apagou a imagem daquela arena em que o teatro se transformou para os nossos combates connosco e com os outros, a que chamamos vida. Quando se acerta tão admiravelmente, dá-se a quem respira a possibilidade de respirar como se o ar fosse mais livre e nós mais aptos a decifrar o mundo e o seu enigmático esplendor.

Se ainda há justiça sobre a terra, ela reconhece que, antes do prodigioso acerto de Vick, há o acerto de quem o escolheu e lhe deu meios. Esse acerto pertence a Paolo Pinamonti. Desde que, há seis anos, trocou Veneza por Lisboa, os acertos sucedem-se e a mediocridade parece ter-se tornado irrecuperável, embora saibamos que ela, como Fricka, deseja sempre vingar-se, usando ardis e aliados para reconquistar o lugar perdido.

De tantos espectáculos apresentados, pode e deve gostar-se mais de uns que de outros. Mas todos tiveram aquela qualidade que faz, de novo, do São Carlos um nome que se pronuncia em voz alta. A sua história tem tempos de auge e declínio. Nas últimas décadas, muitos foram os períodos de miséria musical e artística (para já não falar da outra). Precisamos de evitar o regresso dessas noites em que os nossos olhos tinham vergonha do que viam e os nossos ouvidos do que escutavam. Existe, hoje, uma consciência geral e feliz (tanto mais de sublinhar numa época em que a infelicidade abunda) de que o velho teatro parece novo e vive bons tempos. Há que fazer tudo para que eles prossigam. Para isso, é preciso que Pinamonti continue à frente do São Carlos. Não há pessoas insubstituíveis, mas há aquelas que, pelo que fizeram e pelo que farão, não podem ser substituídas pelos candidatos dos candidatos a todas as candidaturas e substituições.

Dizem que Paolo Pinamonti tem mau feitio. Oxalá continue a tê-lo: essa é a garantia de que não trocará a sua fulgurante exigência por um certificado de bom comportamento. Ouvir Pinamonti falar de ópera, naquela irresistível língua que é a sua forma de prestar homenagem simultânea a Itália e a Portugal, é ficar a saber mais. Conheci poucos que fossem tão exactos e tão criativos no que dizem e no que fazem. Terá, por isso, de continuar a receber-nos naquele "foyer" de onde se avista a casa que outrora foi de um esquecido crítico musical chamado Joaquim Seabra Pessoa. Numa tarde de Junho, ele veio à janela. Acabara de ser pai e ao menino deram o nome de Fernando. Deviam escrever uma ópera sobre ele e os seus heterónimos. Talvez um dia Pinamonti se lembre disso.

José Manuel dos Santos