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Expresso

José Manuel dos Santos

Papéis

Vivo rodeado de papéis, cercado pelo que leio e pelo que escrevo: livros, cadernos, cartas, revistas, blocos de notas, jornais, folhas soltas. Olho esse movimento imóvel de que sou o centro e há dias em que sinto o meu poder sobre ele ameaçado. Gosto de guardar palavras, de coleccionar frases, de juntar textos. E tenho por hábito registar uma citação, copiar uma passagem, escrever um comentário, apontar uma reflexão. Há quem use, para classificar e conservar o que guarda, a assiduidade, o método e a diligência triste dos arquivistas. Mas, a mim, nenhuma regra me consegue submeter duradouramente. Observo com os papéis a mesma lei livre que pratico na vida. Por toda a minha casa, há livros e papéis, reunidos numa desordem de que só eu tenho a chave que a transforma em ordem íntima. Essa ordem faz-se de memória e de imaginação. E ainda de delírio: juro que uma coisa está onde nunca esteve e chego a desconfiar que ela se mudou só para me desvairar. Com a cama ameaçada pelos livros, adormeço diariamente rodeado por uma constelação de palavras. Acordo e vejo que a constelação permanece em volta de mim, mas acredito que ela rodou um pouco em torno do meu sono e no céu dos meus sonhos. Algumas vezes, desperto com o pensamento que me adormeceu, cindindo-o, numa alucinação hesitante, entre o ontem e o hoje. Noutras ocasiões, transformo-me, proustianamente, no que li, através de uma espécie de metempsicose do espaço e do sentido.

Vivo devorado por palavras de vida e de morte, sabendo que elas são o prolongamento da minha agitação e do meu repouso. Há, porém, momentos em que o meu poder sobre elas se transforma no poder delas sobre mim: sou submergido pela onda alta de papéis, naufragando na sua curva interior. É então que começo a comprar livros que tenho, mas não encontro. É nessa altura que tudo o que escrevi e anotei deixa de existir, como se eu fosse o Kafka de um Max Brod cumpridor da sua vontade. É essa a hora em que o mundo parece ter desaparecido debaixo de uma Babel gráfica, perdendo a sua inteligibilidade e o seu eixo. É nesse momento que tudo se afunda num abismo onde nada se consegue descobrir e de onde nada se pode tirar. É aí que o trabalho de busca de um livro ou de um papel passa a ser pesquisa arqueológica, com as suas camadas de matéria e tempo, ou investigação geológica, com a sua tectónica de placas. Como disse o poeta François Ponge, "voici le point important: parti pris des choses égale compte rendu des mots".

É preciso então destruir o mundo e voltar a construí-lo de novo. É necessário declarar a rendição perante o caos e o acaso, voltando à ordem e aos seus princípios seguros, mas exasperantes. Foi o que fiz hoje. Passei o dia, numa liturgia lenta, a arrumar livros, a seleccionar jornais, a escolher papéis. Quero eu dizer: a salvá-los e a perdê-los. E, como se tudo começasse a proliferar, os cestos encheram-se e eu não sei de onde veio tanto horror ao vazio. Mas antes de deitar fora aquilo que, há uns anos, há uns meses, há uns dias, quis guardar, fui lendo, numa melancólica despedida, palavras que nunca mais lerei. Algumas eram sublimes, mas o mundo nunca desiste de nós e o espaço tem a obstinação do tempo: não se desdiz.

José Manuel dos Santos