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Expresso

José Manuel dos Santos

O tiro

Era o ano de 1906 e Picasso pintava o retrato de Gertrud Stein, aquele que hoje nos assombra de uma parede do Metropolitan Museum de Nova Iorque. Conta-se que houve um momento em que o pintor disse ao seu modelo: "Deixo de vê-la quando olho para si." Há quem veja neste dizer o anúncio do golpe deste Perseu moderno que, no ano seguinte, decapitou a arte da sua antiga cabeça de Medusa, dando-lhe em troca as que podemos ver nas Demoiselles d'Avignon. Mas eu cito estas palavras de negação para as aproximar de um livro futuro a elas, que se cruzou com a arte do século XX.

Foi já há muitos anos que encontrei esse livro. Numa entrevista, o pintor Antoni Tàpies falava dele e de como os tinha arrebatado - a ele e a muitos outros artistas europeus e americanos. Tem por título Zen e a Arte do Tiro com Arco, e o autor é Eugen Herrigel, professor alemão que, entre 1924 e 1929, ensinou filosofia no Japão. Especialista de Misticismo, quis estudar o Zen, mas percebeu que a leitura dos tratados lhe dava o nó e não as pontas. Conheceu então Kenzo Awa, mestre máximo da arte do tiro com arco, com quem se iniciou nessa dura disciplina milenar. Durante anos, fez do rigoroso exercício uma mudança de si. É essa experiência, inédita à época para um europeu, que relata neste livro, publicado agora entre nós em edição de bolso. De um ensaio anterior, Herrigel fez, em 1948, uma obra de culto. O prefácio de D.T. Susuki, autoridade do budismo Zen, certificou-lhe uma fidedignidade que não é de desprezar onde abunda o que contrafaz e simplifica.

Nesta arte, o arqueiro é aquele "que se transforma a si próprio em alvo. É simultaneamente o que alveja e o alvo, o que atinge e é atingido". A sua é uma técnica de superação, que se espiritualiza e se transforma numa respiração ("Aprendi a perder-me na respiração, de forma tão despreocupada, que tinha a sensação, não de respirar, mas de ser respirado"), numa estética, numa moral, numa sabedoria de uso prático e quotidiano. Escrita por um filósofo alemão que se apropria dos conhecimentos japoneses e prefaciada por um filósofo japonês que os traduz em conceitos europeus, esta obra breve é atravessada pelos grandes fantasmas da filosofia ocidental, avistados no seu face a face com a filosofia oriental. Vivida por nós como divisão, erro, conflito, discórdia ou alucinação, a relação entre corpo e mente, matéria e espírito, ser e devir, consciente e inconsciente, razão e sentimento, ideal e real, visível e invisível, palavra e silêncio, identidade e alteridade, abstracto e concreto, universal e particular, vida e morte figura aqui como aliança, acordo, concórdia, conjura, fusão e hipóstase. É por isso que este livro, sendo a narrativa da aprendizagem de uma "arte sem artifício", é também um manual de pintura ("não procures, encontra") e um tratado erótico ("não perguntes, pratica"). Depois de ter aprendido a apontar a si próprio, o arqueiro, com a segurança de um sonâmbulo, atinge o alvo sem o ver ("Sou eu quem acerta no alvo, ou é o alvo que acerta em mim?"). Assim Picasso alcançou o retrato de Gertrud Stein. Assim a seta é disparada e apenas nos acerta quando já não estamos em nós.

José Manuel dos Santos