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Expresso

José Manuel dos Santos

O matemático

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Encontrei-a no Chiado e apresentou-me o marido. Ele olhou, mas não me viu, embora no seu rosto sorrisse uma simpatia vaga. Havia entre os seus olhos e o mundo o muro da sua distracção. Despedimo-nos - e lá seguiram os dois. Ela prendia-o pelo braço, como se assim impedisse que ele começasse a voar.

Soube depois que esse homem de ar ausente era professor e matemático. Dizia-se o seu nome e logo alguém acrescentava louvores a uma inteligência que se exercia num dos domínios mais complexos da matemática. E contavam-se histórias da sua desatenção e do seu desatino. Dizia-se que todos os dias perdia a carteira e a chave de casa. Dizia-se que fazia apenas metade da barba, esquecendo-se de fazer o resto - e era exacto, porque várias vezes assim o vi. Dizia-se que usava um sapato preto num pé e um castanho no outro - e também os meus olhos testemunharam a verdade disso.

A mulher era cantora de ópera. Cantava com uma fúria tão feroz e um fogo tão forte que se esquecia de afinar. Mas insistia, persistia, resistia. Cantava para amigos e amigos de amigos. Cantava até para inimigos. Quando estava, fosse em casa própria ou alheia, ouvia-se o seu canto. Certa vez, alguém que a escutava atirou uma palavra brusca: "Esganiçada!" Mas a dona da voz achava-a sublime ("Tal como eu, também a Callas é muito criticada!", dizia).

Um dia, fui a casa deles. Na sala, ela ensaiava com um pianista. Repetia as árias que cantaria à noite, numa festa. No escritório, ele fazia cálculos em papéis que se espalhavam sobre a secretária, que desaparecera. Entrei e acenei-lhe. Ela retribuiu-me o aceno e, enquanto cantava uma ária da "Tosca", apontou na direcção do marido, levando depois o dedo à cabeça, a significar: "É maluco!" Fui cumprimentá-lo, e ele, sem largar a caneta, tocou com o dedo sujo de tinta na testa, indicando, a seguir, a sala donde vinham os trinados da mulher, como quem diz: "Está doida!" Mas eram um para o outro como o numerador e o denominador de uma fracção.

Conhecido de perto, o professor era encantador. Se o conseguíamos fazer descer à terra, conversava com graça e sabedoria. Gostou de mim e tornou-me indispensável. Encontrava-me e parecia uma criança a falar do que lhe interessava. Quem nos viu dizia que também eu não lhe ficava atrás no regresso à infância. Numa tarde chuvosa, morreu subitamente, e a viúva passou a gritar a sua dor nos sítios onde aceitavam ouvi-la. Escolhia as árias mais trágicas - e a voz subia-lhe a alturas ainda mais elevadas, por caminhos ainda mais íngremes.

Lembrei-me deste distraído professor e da sua mulher soprano ao saber que foi dado ao matemático russo Grigoriy Perelman o Prémio Milénio do Instituto de Matemática Clay, destinado aos eleitos que resolvam qualquer dos sete transcendentes problemas que estão em aberto, ditos "as sete maravilhas da matemática". Foi o que o russo fez ao demonstrar a complexa Conjectura de Poincaré, enunciada pelo matemático francês, em 1904, na área da topologia, que trata das formas tridimensionais e das propriedades estruturais dos objectos. Perelman não aceitou a Medalha Fields, o Nobel da Matemática, que lhe foi atribuída há quatro anos, e agora recusou o Prémio Milénio e o seu milhão de dólares. Explicou que não precisa nem de dinheiro nem de fama.

Este duplo desdém por aquilo que toda a gente procura reforçou-lhe a fama de "génio doido". Quando os jornalistas lhe telefonaram, enfureceu-se e disse para não o incomodarem, pois estava a colher cogumelos. Perelman vive, com a mãe idosa, num apartamento de um modesto bairro de São Petersburgo. Distraído e excêntrico, faz aquilo que ninguém faz (solucionar problemas quase impossíveis) e não faz aquilo que toda a gente faz (tomar banho, pentear-se, cortar as unhas, dizer banalidades, ser convencional e conformista). As fotografias mostram-no barbudo, hirsuto, desgrenhado, selvagem. Parece um pope ortodoxo; ou um homeless. Mas vê-se-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa. Toca violino, joga ténis, tem uma cabana na floresta, é pouco quotidiano e totalmente desinteressado dos bens materiais. Um instinto certo desvia-o do injusto, do falso e do inútil. Este J.D. Salinger da matemática defende a sua privacidade com unhas e dentes. Quer o tempo para o que gosta e não gosta de o perder. Distrai-se do que não lhe interessa para não se distrair do que lhe interessa.

No centro do Inverno russo, na velha casa de São Petersburgo, insensível ao frio que vem do Báltico e num silêncio atravessado pelas rezas maternas aos ícones iluminados pela lamparina vacilante, vejo Grigoriy Perelman fazendo os seus cálculos e, com uma inteligência que persegue Deus, conceber a forma do Universo. Neste tempo pequeno, que mais avalia o que menos vale, encontro alegria em saber que ainda há gente fiel a uma grandeza, exacta como um teorema, feita de números que não servem apenas para contar dinheiro ou medir riqueza.

jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 15 de Maio de 2010