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José Manuel dos Santos

O apelo

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Nesse mês de Junho de 1940, um homem já velho, glorificado na I Guerra Mundial como vencedor da batalha de Verdun, aceitou a derrota sob os nazis, preparando o armistício e a sujeição que impunha. Por esses dias funestos, um homem ainda novo, de nome quase desconhecido, foi a Londres convencer Churchill a deixá-lo falar aos microfones da BBC para dizer que nada estava perdido: a derrota da França não era definitiva, porque a vitória era possível e necessária ("Os meios que nos venceram podem ser os meios com que venceremos"). Esse homem que desistiu foi o marechal Philippe Pétain. Este homem que resistiu foi o general Charles de Gaulle.

No dia 18 de Junho, poucos ouviram essa voz recusar a desonra e a resignação perante ela: "Foi dita a última palavra? A esperança deve desaparecer? A derrota é definitiva? Não." Neste dizer havia apelo e vontade: "A chama da resistência francesa não deve apagar-se e não se apagará." Este 'não' à derrota e à capitulação, dito por quem não tinha mais do que a sua voz, parecia uma loucura. Mas foi o princípio de um caminho e a nascente de um rio. Foi o ovo da águia contra o ovo da serpente. Nos dias seguintes, De Gaulle multiplicou o apelo, tornando-o mais forte, mais firme, mais audível. O general estava quase só - apenas acompanhado da coragem e da honra de a ter. Mas a sua solidão era uma rocha. Cada palavra sua acusava Pétain. Em Agosto, o marechal da submissão decretou a condenação à morte do general insubmisso, que a recebeu como mais uma prova da razão que tinha. A partir daí, encontrou aquilo que o fez grande. Não parou mais: discursou, ousou, agiu, exigiu, atraiu, arrecadou, reuniu, provocou. E construiu um mito. A França, que não vive sem heróis, passou a ter um. Com o general e a sua voz livre, pôde aparecer, no fim da II Guerra Mundial, ao lado das democracias aliadas que tinham vencido o nazismo e o fascismo. Pétain, acusado de alta traição e de conluio com o inimigo, foi condenado à morte. De Gaulle comutou a pena em prisão perpétua. Foi essa a sua mais piedosa e altiva vingança.

Durante o regime de Vichy, enquanto os crimes e os cadáveres se acumulavam, Pétain falava de virtude e de moral. É sempre assim. Ao mesmo tempo que aceitava a derrota, fazendo-a inevitável e inelutável, queria também torná-la justificada e merecida. Dizia que a causa dela era apenas uma: o espírito de sacrifício e de serviço tinha sido, depois de 1918, substituído pelo espírito de prazer e de alegria. Mais tarde, nas suas "Memórias de Guerra", De Gaulle faz um impiedoso retrato de Pétain. Pinta-o com a tinta escura da condescendência e do desdém. Nele, mostra-nos um marechal velho, ressentido e orgulhoso, manipulado e senil, caído nas mãos de todos os abusadores. Comenta: "A velhice é um naufrágio. No caso de Pétain, o seu naufrágio pessoal coincidiu com o naufrágio da França." No caso de De Gaulle, a sua liberdade tornou-se a liberdade da França: o rosto dele foi o rosto dela, a sua vitória fez-se a vitória de todos.

Tudo isto é história, a que decide da vida e da morte dos homens e dos povos, aquela que é feita de sangue e de som, de lama e de luz, de grandeza e de gritos, de cobardia e de coragem, de sujeição e de insubordinação. É verdade que tudo isto é história - mas tudo isto não é apenas história. Aqui, estamos no coração da tragédia, essa em que os deuses e os homens, os valores e as acções se enfrentam, se interrogam, se desafiam uns aos outros. Aqui, estamos onde os ventos sopram sobre os abismos, dizendo, com as suas vozes roucas, nomes humanos.

Passam agora 70 anos sobre o Apelo de 18 de Junho, e as celebrações na Europa têm-nos dito tudo, excepto o essencial. E não dizem o essencial porque os políticos que comemoram uma resistência e uma recusa são os políticos da aceitação e da desistência. São os filhos de Pétain e não os herdeiros de De Gaulle.

Neste tempo de todas as crises, o Apelo de 18 de Junho continua a afirmar-nos que não há quase nada que a vontade não possa defrontar. Num tempo em que o antigo determinismo historicista foi substituído pelo novo determinismo economicista, é altura de fazermos da vontade de não nos sujeitarmos um gesto lançado sobre o mundo. Porque aqueles que geraram a crise são os mesmos que a usam para acabar com o que de bom ainda não tinham conseguido destruir. Ao apontarem ao Estado Social o seu ódio, proclamando a inelutabilidade do seu fim, são eles os Pétains do nosso tempo - aqueles que se rendem à força bruta de uma economia que faz da violência, da irresponsabilidade, do crime e da eugenia social a arma com que avança e submete, contando com o nosso desânimo em frente do desastre.

jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 19 de Junho de 2010