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Expresso

José Manuel dos Santos

Europa

Foram os gregos, de quem e de cujos mitos nunca mais nos livramos, que deram à Europa o touro, o engano, a sedução e o rapto. Zeus, no dia em que a viu, e à sua beleza leve, junto às águas de luz do Mediterrâneo, fez do touro em que se metamorfoseou o animal do desejo. Um desejo que não precisava de se assombrar com sentimentos morais, pois tinha uma limpidez tão física e uma intensidade tão urgente que o transformavam no centro do mundo. No quadro em que pinta o rapto da Europa, Ticiano anuncia um feminismo altivo: o touro parece diminuído por um humilhante pudor em face da liberdade vitoriosa da Europa. Como quem lembra: foi Zeus que a raptou, mas, antes, fora ela quem raptara o desejo divino, tornando-o a meta para onde se corre à desfilada. Talvez por isso a Europa nunca tenha escapado ao fascínio desse feitiço circular: ela enfeitiça o touro e fica enfeitiçada pelo feitiço que provoca. Assim sucumbiu, ao longo da sua história, ao olhar com que olhou o touro que a tinha olhado, no engano trágico de ser esse olhar o espelho que lhe restituía o feitiço. Melhor do que ninguém, soube Picasso ler no Minotauro o fascínio a que a Europa sucumbiu. Glosou-o de todas as maneiras e feitios, ele, europeu de uma Europa que passou por Guernica, pondo o touro no centro do quadro e da sua bruta barbárie. O touro grego e o touro espanhol são duas aparições da dúvida europeia que se quer tornar certeza.

Sem os seus fantasmas, a Europa não existe. Só perante eles, é capaz, como Antígona, de ser insubmissamente justa. Apenas ouvindo a voz dos seus remorsos, consegue avançar ao encontro de si mesma, construindo-se na destruição de um pesadelo que não cessa de a atormentar. Claude Lévi-Strauss afirma que houve um momento em que "o Ocidente perdeu a sua oportunidade de permanecer mulher". Aqueles que querem fazer da Europa uma história esquecida, um inconsciente vazio, uma cultura rasurada, um léxico alienado, uma lição sabida, um relatório calculado falham e falham-na. A Europa é espectro, contradição, ameaça, superação. É pergunta, insónia e anamnese, afirmação e crítica, clareza e dédalo. É rasgão e rasgo, hesitação e avanço, razão e noite, realidade e miragem no deserto do que ainda não é. Quem ignora isto é semelhante àquele que quisesse fazer da história um tratado de bons costumes ou um balanço de contas certas. Permanece actual a pergunta de Czeslaw Milosz: "Estes homens de negócios de olhares nulos e sorrisos atrofiados... É a esta vérmina que chegou uma civilização tão delicada, tão complexa?" A Europa só pode ser aquela que, disfarçada de si mesma, avança ao encontro do touro para o raptar, invertendo o engano a seu favor.

Comemoram-se agora os cinquenta anos do Tratado de Roma. É melhor comemorá-los no realismo da apreensão do que na euforia do engano. A Europa é vontade. Assim a tenhamos nós por ela, pois só a nossa vontade dela será a sua vontade de nós - e do futuro.

José Manuel dos Santos