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Expresso

José Manuel dos Santos

Diálogos

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

O estudante de filosofia estava sentado num café de bairro, vazio àquela hora, a ler "O Banquete", de Platão. Lia: "Não posso imaginar um bem comparável ao do amante que encontra um amado digno."

De repente, um homem entrou e dirigiu-se ao balcão, atirando ao empregado: "Estás com cara de enterro?! Eu, se fosse a ti, tinha metido um mês de baixa para curtir a ressaca. Que estás tu aqui a fazer?!" O outro, enquanto lhe aviava uma imperial, respondeu: "Eu não quero saber de futebol para nada: não me dá de comer, e essa tua conversa para mim vale zero..."

De fora do balcão, o homem corpulento, contente como fica aquele que apanha um rato na ratoeira, exclamou: "Compreendo! Não queres saber de futebol porque perdeste o campeonato. Se tivesses ganho, já querias saber. Vocês só sabem de que clube são quando ganham. Eu preferia ser cabrão ou paneleiro do que ser do teu clube!" E ria, com um riso grosso, que lhe alargava a cara, que lhe percorria o corpo numa epilepsia de gestos. O empregado, humilhado e nervoso, acabou de tirar a imperial, bebeu-a de um trago e levantou a voz: "Estás a chamar-me rabo e corno, mas não é da minha mulher que falam - é da tua!" E bebeu mais uma imperial.

O estudante tentava concentrar-se na sua leitura: "Assim, se houvesse processo de constituir um Estado ou um exército só de amantes e de amados, que organização melhor poderia encontrar-se?" Então, o homem alto deu uma punhada no metal do balcão, gritando para o empregado: "Ó meu palhaço, eu não te estava a chamar paneleiro nem corno, estava a fazer uma comparação. Mas agora chamo-te paneleiro, cabrão e porco! Porco! Estás a ouvir?! E não te parto ao meio porque não tens cara para levar duas chapadas! Se fosses um homem a sério, enchia-te a boca de murros."

O que estava dentro do balcão fez a sua pequenez crescer meio metro, desafiando: "Então dá lá os murros, ó meu cobardolas. És uma merda d'homem! Ou já não te lembras de quando te armaste em campeão e levaste um arraial de porrada que ficaste com os cornos de molho durante mais de uma semana?!" O outro cegou de raiva: "Estás a dizer que tenho cornos. Vais provar isso. Se não, reduzo-te a alcatrão." E o empregado: "Ó palhaço, não foste tu que começaste a chamar-me cornudo?! E agora ofendes-te por eu dizer que ficaste com os cornos de molho durante uma semana. Eu disse cornos, mas estava a falar de futebol. Não queria ofender a tua mulher!"

"Nem eu a tua. Eu até sou um gajo tolerante. Se queres ser desse clube de merda, tens todo o direito de o ser. Não gosto, mas respeito. E não gosto porque, como teu amigo, gostava que fosses do meu clube. Se não fosses meu amigo, estava a cagar-me para isso. E digo-te mais: sei que não és panasca, mas, mesmo que gostasses de abafar a palhinha, era contigo - e eu não tinha nada com isso. Continuava na mesma a ser teu amigo. Podias até contar comigo, que um maricas precisa sempre de protecção", disse ao outro, que respondeu: "Agradeço, mas não preciso da tua protecção. Nem eu, nem eles, que agora até podem casar. Alguns já estão a preparar a festa. E fazem bem, que ninguém tem nada com o que cada um é ou faz!"

O de fora passou para dentro do balcão e pôs-lhe a mão no ombro: "Ó pá, eu sou cem por cento homem, mas concordo contigo a duzentos por cento. Cada um sabe da sua vida. Ó pá, a propósito, dizem-me que aquele que veio morar para o terceiro andar do prédio ali em frente enche a casa de gajas, mas é para disfarçar. Parece que o tipo anda metido com um amigo que é casado com uma hospedeira. Já o viste? Tem boa figura, aloirado, costuma vir aí quando a mulher está a voar. O gajo é giro. Eu, se fosse larilas, não me importava de dar uma voltinha com ele." O outro juntou a sua gargalhada à gargalhada que ouvia: "Ó pá, tens razão, o gajo é giro. Já o vi, e já vi a mulher, a hospedeira, uma vez que veio com ele. É boa como tudo. Se calhar, o marido tem muitas assim e já enjoou. Quer variar!" E o grandalhão: "Pois que lhe faça bom proveito, que são mais as que sobram para mim!"

Na mesa, o estudante continuava a ler Platão: "Sócrates insistia em fazer-lhes ver que o mesmo que sabe compor tragédias sabe também compor comédias, e aquele que tem a arte do poeta trágico tem também a do poeta cómico." Levantou os olhos do livro e olhou o balcão. Os dois homens reconciliavam-se com um abraço e discutiam quem pagava as próximas imperiais.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010