Siga-nos

Perfil

Expresso

José Manuel dos Santos

Chopin

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Quem disse que a glória é o conjunto dos mal-entendidos criados em redor de um nome podia estar a falar de Chopin. A sua glória, com enganos, logros e abusos, atirou-se à sua música, tornando-a o que não é. Alguns, ao querer enaltecê-la, encontraram nela o que era neles que estava. Outros, para a depreciar, descobriram aí o que lá não estava.

A essa música foram dados todos os sentidos, mesmo os sem sentido. Distorcida até à contrafacção de si mesma, tudo se lhe colou, como a um íman que nada repelia. Foi música de salão, tocada por mãos suadas e nervosas. Foi música de hotel, escutada por ouvidos distraídos ou ineptos. Foi música de filme, posta sobre cenas patéticas ou imbecis. Nela, confundiu-se a alta emoção com o baixo sentimentalismo. Outros 'abrilhantaram-na', levando-a a um lugar onde o kitsch rondava.

De tanto a obrigarem a ser o que não é, negou-se - e negaram-na. Por isso, houve um tempo em que falar dela era dizer mal. Dizia-se a dolência, a morbosidade, a nevrose, a deliquescência, o excesso, o paroxismo. Chamaram-lhe afectada e sentimental, melodramática e deletéria, doentia e desmoralizadora. Viu-se nela o asfixiante exagero romântico. Um dia, perguntaram a João Villaret quais os compositores do seu gosto. Ele disse vários, acrescentando aquele que, sem saber a razão, detestava: Chopin. Neste dizer de Villaret, o preconceito cai sobre o conceito.

Então, poucos eram os que pensavam esta música como é. Um desses foi Rubinstein, que a tocou com a vitalidade e o vigor dela. Também André Gide soube encontrar em Chopin uma modernidade infalível. Num livro agora publicado, que reúne tudo o que, ao longo da vida, o escritor escreveu sobre o músico, há páginas da mais astuta compreensão musical. Gide sintetiza: "Chopin parece recuar os limites, reduzindo ao indispensável os meios de expressão. Longe de carregar de notas a sua emoção, à maneira de Wagner, ele carrega de emoção cada nota; eu diria: de responsabilidade." E junta Chopin ao Baudelaire de "As Flores do Mal", lembrando que à arte de ambos se chamou malsã: "Um e outro têm o mesmo desejo de perfeição, um igual horror da retórica, da declamação e do empolamento oratório; num e noutro encontro o mesmo uso da surpresa." Para Gide, esta é uma música pura e confessional, porque "propõe, supõe, insinua, seduz, persuade, não afirmando quase nunca". Acrescenta: "Sim, há o Chopin melancólico, o que obtém do piano o mais desolado dos soluços. (...) Mas o que amo e louvo é que, através e para além dessa tristeza, ele alcança a alegria; uma alegria que domina (Nietzsche sentiu isso muito bem); (...) e uma felicidade que encontra a de Mozart, mas mais humana."

No estudo "Chopin, o Romântico Barroco?", o pianista e compositor Michäel Levinas, filho do filósofo Emmanuel Levinas, olha o lugar de Chopin na história da música e aponta a sua descendência de Bach e de Mozart: "Diferentemente dos outros criadores do princípio do século XIX, ele protege-se da influência beethoveniana e das desproporções formais das primeiras formas românticas. Esta obra reclama-se de filiações barrocas complexas e, ao centrar-se no piano solo, participa de um modo maior na evolução deste instrumento e das suas consequências sobre toda a criação musical do seu século."

Marcel Proust, no "Chopin" dos "Retratos de Pintores e de Músicos", parece coincidir com a sua época. Mas, por uma daquelas torções que o voltam contra o vento, acerta no alvo em fuga ("Cúmplice então da mágoa surge a tua alegria"). Jorge de Sena diz tudo isso em "Chopin: Um Inventário": "Uma arte de compor a música como quem escreve um poema,/ a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração/ ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre/ a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos/ usada para esconder o pensamento - e escondê-lo tanto,/ que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos,/ e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres/ para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se/ morno às horas da saudade e da amargura,/ quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,/ e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo/ de ser-se piano e nada mais no mundo."

Neste Ano Chopin, em que passam dois séculos sobre o seu nascimento na Polónia, continuam as reedições das suas obras tocadas por grandes pianistas (Cortot, Lipatti, Rubinstein, Pollini, Argerich, Richter, Arrau, Michelangeli, Horowitz, Ashkenazy, Freire, Barenboim, Pires, Kissin). Muito se tem escrito, nestes meses, sobre este mestre da melodia e da harmonia. O que hoje se diz é muito diferente do que ontem se disse. É altura de ouvir Chopin com ouvidos novos.

Agora, escrevo e oiço os 'Prelúdios'. Tenho passado longos dias da minha vida com esta música que nunca se cansa de nós. Escuto-a subtil, atenta, refinada, exacta, surpreendente. Escuto-a na sua claridade escura, na sua matéria imaterial, na sua queda ascendente, na sua sombra acesa. Escuto esta música que a si mesma se rapta.

jmdossantos@netcabo.pt 

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 29 de Maio de 2010