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Expresso

José Manuel dos Santos

Benjamin

As vidas que se submetem à desgraça predestinam-se e atraem-nos. Herdeiros de uma antiga linhagem de pensamento, gostamos de imaginar este recurso para assim dar aos deuses uma última possibilidade de defesa pela dor que causam. Na vida de Walter Benjamin tudo falhou. Tudo, excepto ele. Mesmo a morte dada a si mesmo, quando tentava abandonar uma Europa que se negava três vezes, negando-o quatro, foi uma fuga conseguida a uma fuga falhada. Mais uma vez, a última, perante a vida que falhara, só ele não falhou. É por isso que, de tudo o que deixou, apenas a obra está à sua altura, revelando-o, e adivinhando-nos.

Hannah Arendt, na evocação de Benjamin, cita uma passagem do Diário de Kafka, como se estivesse a desenhar o seu rosto: "Quem quer que não consiga dar-se bem com a sua própria vida, enquanto vive, precisa de uma mão para afastar um pouco o desespero sobre o seu próprio destino... mas com a outra mão pode anotar o que vê entre as ruínas, porque vê coisas diferentes, e mais coisas do que vêem os outros; afinal, morto como está durante a sua própria vida, é ele o verdadeiro sobrevivente." Susan Sontag descreve o seu temperamento saturnino, que torna as pessoas melancólicas, apáticas, indecisas e lentas. T. W. Adorno fala da "fidelidade à felicidade que lhe é negada" e acrescenta que "a frase de acordo com a qual o conhecimento individual é o mais universal parece ter sido feita a pensar nele". Gerhard Scholem afirma que a marca da juventude do seu amigo foi a de uma "profunda tristeza". Maria Filomena Molder, quando lembra o desejo de Benjamin de compor uma obra inteiramente com citações, comenta que "escrever por intermédio de outrem, para quem é escritor, acaba por tomar a figura de não se poder viver por si, de viver sempre por outro..."

Desde que, num dia já longínquo, abri um livro de Walter Benjamin, percebi que tinha nas mãos uma das chaves para aceder-me e aceder ao que, inocentemente, chamamos o nosso tempo. Não sabendo alemão, sempre o li muito, mas como pude, socorrendo-me de versões em várias línguas, na esperança de que se publicasse em português uma tradução fidedigna das suas obras fundamentais. É o que tem estado a acontecer, sem que se dê suficientemente por isso. Numa colecção da Assírio & Alvim, com cuidada edição e tradução de João Barrento, já saíram três volumes das Obras Escolhidas de Walter Benjamin. O último, aparecido agora com o título de A Modernidade, reúne escritos capitais do filósofo, entre os quais os famosos sobre Baudelaire ("A bohème", "O flâneur", etc.), "A Obra de Arte na Época da Sua Possibilidade de Reprodução Técnica" e "O Autor como Produtor". Ler Benjamin, esse Proust em busca do futuro, é passar a mão pelo mundo, sentindo o que sente quem a passa pelo dorso de um animal selvagem, apenas momentaneamente aquietado. Mas, como numa fotografia, olhamos o que lá está - e vemos também o tempo, sob cuja forma tudo nos é dado e tirado.

José Manuel dos Santos