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José Manuel dos Santos

Aranhas

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Se morrem jovens aqueles que os deuses amam (disseram Plauto e Pessoa), morrem velhos aqueles que os demónios querem. Louise Bourgeois morreu recentemente, com 98 anos. Atravessou o tempo com um séquito satânico que a ajudou a fazer uma obra que se ergue, desafiadora e íntima, numa paisagem visual cheia de tudo e de nada. Seria precisa a vasta inventariação que a Idade Média fez dos demónios para enumerar aqueles que lhe deram a mão. Mas conseguiu virá-los a seu favor, tornando-os aliados, artífices e arautos.

Louise achou na infância uma mina - não de ouro fulgente, mas de carvão escuro e insolente. Não viu aí inocência e felicidade, mas medo, trauma e esconderijo. Os pais eram artesãos-restauradores de tapeçarias. Amava a mãe, paciente, útil, racional, equilibrada, indispensável. Odiava o pai, infiel, imaturo, despótico, irresponsável e desordenado. Falava disso como se o transmitisse em morse a si mesma. Entregou a vida à obra para que a obra se transformasse na vida. Assim foi.

Quando, já nos anos da velhice e da celebridade, fez uma aranha a que chamou "Maman", estava a lançar um gesto que apontava ao início de tudo. Quem esteve debaixo desses enormes seres de aço e bronze sabe o que ela quis dizer quando disse que as aranhas são protectoras. E sabe que a protecção tem a presença hirta e fria do metal.

Com uns olhos cortantemente azuis, esta mulher de metro e meio de altura, que falava com astúcia da sua arte, dizendo, ao mesmo tempo, senão a impossibilidade, pelo menos a inutilidade desse falar, intrigava e fascinava. Fotografada por grandes fotógrafos, o retrato de Mapplethorpe mostra-a familiar e fálica. Lembra Marie Bonaparte, princesa e psicanalista, que, como testemunham vários memorialistas, falava da "inveja do pénis" enquanto assistia à coroação da rainha Isabel II, em Westminster.

Até ao fim, Louise recebia, aos domingos, jovens artistas e velhos admiradores. Li a narrativa de uma dessas tardes no salão da sua casa de Chelsea, decrépita e irreal como ela. Era a descrição de uma sessão de espiritismo. E lembrava o relato, exacto e pérfido, que Truman Capote fez da visita à baronesa Karen Blixen.

Louise Bourgeois parecia insignificante ao pé das suas esculturas monumentais. Mas se pensávamos que ela era a sua criadora desproporcionada e altiva, ficávamos ainda mais maravilhados pelo prodígio e pela altura dele. Em frente, debaixo, ao lado das suas obras, senti-me centrípeto e centrífugo. Mas saía das suas exposições mais apto a caminhar nas terras onde faltam nomes para dar ao que vemos. Não há nada que substitua o choque do olhar com a pergunta que a si próprio faz. As obras de Bourgeois estão à nossa espera para desfazer a estabilidade e o delírio dos que acreditam nela.

Nasceu em Paris e estudou em várias escolas. Como Vieira da Silva, frequentou La Grande Chaumière e foi aluna de Léger. Conheceram-se? Às vezes, penso que Louise fazia as aranhas e Maria Helena as teias. Ao ir de Paris para Nova Iorque, nesse ano terrível de 1938, Bourgeois acompanhou a viagem que a arte fez, mudando o seu centro da grande cidade francesa para a alta cidade americana: uma herança atravessada por uma audácia. O tiro de partida de Louise foi dado, em 1945, com uma exposição de desenhos. Depois, não parou mais, embora, durante muitos anos, poucos o soubessem. Fez, desfez, refez. Criou um código, um alfabeto, uma língua. Só aos 70 anos lhe chegou a glória. Vivendo-a, viveu quase até aos 100.

No seu trabalho, usou todas as formas, todas as técnicas, todos os materiais (tecidos, pedras, metais, gessos, resinas, madeiras, borrachas, vidros). Afirma-se que tem laços com surrealistas, construtivistas, primitivistas, expressionistas abstractos, minimalistas. Ao seu, juntam-se os nomes anteriores de Brancusi e Giacometti. Dizer isso é afinal dizer que Louise tem uma aliança consigo mesma. Como o Deus de Moisés, ela é aquela que é. Autobiográfica e mundividente, subjectiva e material, genital e ortopédica, orgânica e geométrica, monstruosa e subtil, ímpia e religiosa, esta obra é sonho material e matéria sonhada. É uma grande tempestade parada. Fala do nascimento como anatomia, do sexo como armadilha, do tempo como corte, do eu como exército, do masculino como feminino, da ambiguidade como transgressão, da lentidão como rapidez, do ascendente como descendente, do interior como exterior, da saúde como doença, da física como metafísica. Fala da infância e da cólera, da morte e da necessidade, da arquitectura e do corpo, do desejo e do perigo, do refúgio e do mal, do olhar e da fractura. É uma obra tão escura que se torna clara, tão espessa que se torna transparente. É uma obra-totem-fábula-reminiscência-reclusão-pesadelo-tormento-terapia-exorcismo-esconjuro-catarse-parto-vidência-magia-maquinação. É uma obra olhada por Spinoza, Leibnitz, Deleuze. É uma obra com a qual a sua criadora diz: "O artista deve alcançar a perfeição do silêncio." Calemo-nos com ela. Porque, ensinou-nos Susan Sontag, para a olhar, "não precisamos de uma hermenêutica, mas de uma erótica".

jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 12 de Junho de 2010