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Expresso

José Manuel dos Santos

Antonioni

Na manhã de um sol sem cor, o homem sai de uma casa a que chama sua, mas à qual se sente alheio. Dirige-se à paragem, entra no primeiro autocarro e os olhos que olham no seu rosto são tão indiferentes como os olhos que olham o seu rosto. Todos aqueles olhares olham o vazio que há entre eles, enquanto passam por filas de carros com pessoas que atravessam o mundo sem o ver, fazendo dele um túnel. O homem, a meio caminho entre a idade que avança e a idade que recua, sente no seu corpo as paragens e os arranques do autocarro, que neste momento percorre a avenida de onde se avista o porto com o seu deserto de bolso: extensões vazias e esgotadas como deuses, entre edifícios em ruínas e barracões abandonados, dando para o rio que, ali, parece estagnado, anterior à vida. Lentamente, o autocarro pára e entra uma mulher nova, armada daquela espécie de defesa que tem quem pensa que existe o ser em vez do nada para se poder reparar nela.

E o homem dá-lhe razão nesse pensamento, pois a sua atenção acende-se: começa a devorá-la e ao seu pequeno desdém. Ela lembra-lhe alguém que viu noutro tempo e noutro espaço. Traz-lhe uma cor a que tinha ligado outra mulher, a quem agora associa esta. Essa cor é o azul, um azul em fuga do preto. Interroga esse azul, cuja memória tenta vencer os seus olhos amnésicos, mas ele não lhe responde. Será ele o azul do vestido que essa outra mulher usava quando a conheceu? Será o do mar para onde ela correu numa tarde de Verão? Será o da estampa (de Matisse?) que ela tinha no apartamento e que tingiu dessa cor a primeira noite em que lá foi? Não se lembra. Não se lembra de nada.

Os últimos vinte anos da sua vida têm sido um trabalho de luto para esquecer o seu próprio desaparecimento. Ele é um desaparecido de si mesmo, que desconhece as razões e as circunstâncias desse desaparecimento, eclipse num céu que ficou vazio. Sabe que a história pode ser contada de várias maneiras, todas elas possíveis, todas elas prováveis, todas elas diferentes, todas elas indiferentes. Tudo se lhe tornou abstracto como as regras de um jogo perdido. Mesmo as frases que diz são erros sucessivos de uma conta que nunca acerta. Diante dele, no autocarro, a mulher jovem, com um lenço azul-forte em volta do pescoço alto, continua a fingir que não olha o olhar dele. Então, ele fita o grande plano do seu rosto e ela aguenta essa intensidade como se fosse a de uma despedida. Subitamente, passa a mão pelo cabelo, volta-se, ajeita a mala no ombro, dá cinco passos curtos e sai do autocarro.

O homem olha-a através do vidro da janela e, embora ela se afaste, parece que caminha para ele. Os seus gestos são os de um sonho. O autocarro persiste na sua marcha por entre a monotonia agitada da vida, e as palavras breves que as pessoas trocam entre si parecem ao homem silêncios falados, que nem o nada dizem. Ele quer continuar a olhar, mas agora não tem para onde. Desce do autocarro, atravessa a rua fora da passadeira, a ziguezaguear entre os carros, e dirige-se à paragem no passeio do outro lado. Lá está o homem, agora, à espera de um autocarro que o faça regressar a casa. Ali está ele, alheio a si – assim se é alheio à morte que, sem sabermos, já chegou.

José Manuel dos Santos