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Expresso

José Manuel dos Santos

Açores

Nada que é dos Açores me é indiferente: fui lá e fiquei para sempre. Houve anos em que passei as férias de Verão nas ilhas e houve outros em que ali me demorei, fazendo aquilo a que alguns, com pessimismo, chamam trabalhar. Desses tempos, guardo a lembrança dos longos dias vividos no leve esquecimento de mim e do meu nome. Dias voltados para o oceano e para as aves que o sobrevoam, como se o mar lhes fosse o céu e o céu lhes fosse mar. Conheço todas as ilhas, e em cada uma achei resposta para uma pergunta que levava. Em Santa Maria, encontrei a lentidão. Em São Miguel, a voragem. Na Terceira, a euforia. No Faial, a distância. No Pico, a solenidade. Em São Jorge, a contingência. Na Graciosa, a claridade. Nas Flores, o excesso. No Corvo, a exaustão. Os Açores são um universo de bolso. Uma síntese, um segredo e um sinal. Um reino e um exílio. Um relâmpago de terra. Uma ópera cósmica, feita das vozes do vento, dos vultos das vagas, dos gritos das grutas, dos nós do nevoeiro. Lá, não podemos esquecer a luz. Ela persegue-nos, conquista-nos, submete-nos, mesmo quando falha. Nos Açores, os elementos possuem-se, cavalgam-se, geram-se, transformam-se uns nos outros: a terra torna-se fogo; o fogo, ar; o ar, água; a água, terra. Tudo é luz: luz subterrânea, luz alada, luz aquosa, luz ardida. Luz lenta, luz leve, luz larga, luz longa, luz limpa. E tudo se faz música. Até nós.

Um dia, cheguei à ilha, já a noite a tudo tirava forma, e da forma que tirava fazia o fundo de que tece a sua máscara de escuridão e perigo. Eu vinha extenuado de mim mesmo, pesado do meu peso, fixo na minha fixidez. Adormeci de um sono feito da pedra do Sísifo em que me tornara. Quando acordei, o dia amanhecia, e eu olhei a sua luz fria sobre as águas da lagoa. Quis tocar o milagre com o olhar. Fiquei à varanda a acreditar no que via, e as horas foram minutos, os minutos segundos. No fim, olhei-me e era outro. Assim, ali me tornei a luz da sombra que era.

Nos Açores, as pessoas vivem como se a vida fosse repetição e reza. Têm a religiosidade, a concentração, o fervor, o vagar, a angústia, a insistência que têm os que oram a um Deus. E possuem a superstição, a suspeita, o espanto, o ardor dos que o encontram a andar sobre as águas. Oliveira Martins, porque não era açoriano, comentou assim o suicídio de Antero, no campo de São Francisco, em Ponta Delgada, no fim de um dia de Setembro, junto ao muro onde continua escrita a palavra Esperança: "O nosso pobre Antero não tinha a filosofia bastante para perceber que da vida nem vale a pena nos desfazermos. Era um alucinado da metafísica e provavelmente acabou julgando ir viver num mundo melhor." E Vitorino Nemésio diz: "Quando penso no mar, o mar regressa/ A certa forma que só teve em mim -/ Que onde ele acaba, o coração começa."

Tenho muitos amigos açorianos. Sei que isso é um dom, um desafio, uma dádiva, um destino. Por isso, escuto com eles a voz das ilhas. E oiço, nessa voz, as gargalhadas marítimas de Natália Correia a anunciarem-me um Verão nocturno com o seu desejo, o seu desassossego, o seu desvario. E, às vezes, com o seu deserto, o seu desastre, a sua derrota.

José Manuel dos Santos