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Expresso

José Manuel dos Santos

A fotografia

José Manuel dos Santos (www.expresso.pt)

Eu tinha aquela idade em que todos os dias descobrimos o mundo. Essa é a idade da felicidade infeliz - de tudo parte uma seta que nos atravessa e marca. Esse é o tempo de acreditar e pôr em causa, aceitar e achar inaceitável, como se fossem esses os dois movimentos da nossa respiração rápida. Nessa idade, sentimos a fome insaciável da vida: comemos, bebemos, desejamos, curtimos, amamos, lemos, conversamos, vemos, ouvimos, aprendemos, viajamos, fugimos, imaginamos - e tudo nos parece a mesma coisa em nós.

Foi nesse tempo, em que nos tornamos o que seremos e em que deixamos de ser o que éramos, que tive aquele livro na mão pela primeira vez, e li, deitado na cama, com os pés para a cabeceira e a barriga para baixo: "Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam. // Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. - E vi que era amarga. - E injuriei-a."

O dia em que li aquele livro onde começa a poesia moderna (Barthes) tornou-se semana, a semana tornou-se mês, o mês tornou-se ano, o ano tornou-se vida. A obra, precoce, breve, selvagem, genial, de Rimbaud fez-se minha. Nesta obra que aspira a desregrar todos os sentidos e a desregular todos os modelos, os fins coincidem com os princípios e o "patois delicodoce" é recusado. O tempo foi passando e nunca conseguiu desmentir a sua presença em mim.

Desde o momento em que respirei o ar queimado pelo poeta do soneto das "Vogais", do "Barco Bêbado", das "Iluminações", de "Uma Cerveja no Inferno", quis saber tudo sobre ele. E assim o tornei um rosto. A esse rosto raro dei-lhe uma fotografia: aquela em que aparece com ar de enfant terrible: os olhos 'branco-azuis', o cabelo rebelde, o laço desalinhado, a expressão leve de desdém nos lábios. Tive-a diante de mim, no meu quarto de adolescente, muitos anos e, ao olhá-la, planeei muitas revoltas, exaltei muitos amores, mitifiquei muitos crimes, imaginei muitos futuros, escrevi muitos poemas.

Ao longo de anos, passei horas a conversar com o Cesariny sobre Rimbaud, deus do seu sétimo céu, que nunca cessou de ler, traduzir, pintar, atirar ao mundo. Às vezes, não era preciso dizermos nada, senão trazer ao de cima aquelas palavras acesas: "Amava o deserto, os vergéis queimados, os quiosques falidos, as bebidas reles. Arrastava-me por ruelas fétidas e, de olhos fechados, oferecia-me ao sol, deus do fogo". Eram estas as senhas e as contra-senhas de entrada num outro mundo. Outras vezes, falávamos da sua vida de trinta e sete anos: do professor Izambard, do ódio à família, da fuga de Charleville, do amor louco com Verlaine ("virgem doida/o esposo infernal"), da ida para Londres e Bruxelas, dos disparos, da prisão de Verlaine, da escrita e do fim do milagre dela aos dezanove anos, do abandono da Europa, do silêncio, dos negócios, do graffiti de Luxor, da irmã abusadora, da doença atroz, da morte em Marselha. Cesariny dizia da obra de Rimbaud e da sua "aventura espiritual" que é o "dies irae de dois mil anos de civilização que vitima para glorificar". Eu digo que é um golpe de luz na noite impossível.

Agora, apareceu a fotografia desconhecida. Tirada entre 1880 e 1890, foi descoberta por dois alfarrabistas. Vê-se um grupo de sete pessoas, seis homens e uma mulher, na varanda do Hotel de l'Univers, em Aden, na Abissínia. Entre os que ali figuram, está um homem sentado, mas como se estivesse prestes a levantar-se. O rosto mostra que ele está fatigado de si mesmo e do mundo. O olhar é vago por indiferença e não por distracção. Olha, mas não tem nada a dizer sobre o que olha. É o rosto de um poeta partido. Pode ser também o rosto de um traficante de armas, com a sua elegância cruel e a sua avidez serena. Há ali segredo, evasão, tédio, repetição, realidade, ressaca. Há solidão, irrealidade, frieza, desencanto, passividade. Sente-se naquela fotografia a passagem do tempo, o seu som, o seu ruído, a sua voz massacrante.

Rimbaud esteve naquele hotel, naqueles anos. Seria este rosto o dele?, perguntaram os livreiros. E quem sabe respondeu que é quase certo (com ele, nada é totalmente certo, senão o seu génio) aquele rosto ser o seu. Se assim é, estamos perante a única fotografia nítida do Rimbaud adulto. A única que nos mostra os seus traços, a sua aura apagada. As imagens que se tinham visto dele mais velho davam-no sem o dar, dando apenas um fantasma à distância, a sombra de um sol em fuga. Esta mostra-nos um fogo arrefecido no centro. Olho a fotografia e ela interroga-me, emociona-me, empurra-me para mim - empurra-me contra mim. Comparo-a com a fotografia do adolescente selvagem que estava no meu quarto. E soa a música da sua vida - a cavalgada dura, a fuga para a frente, a tristeza do entardecer. Assim, em Aden, no Hotel de l'Univers, o cair da tarde vinha bater-lhe no rosto como uma pedra.

jmdossantos@netcabo.pt

colunista regular do "Actual"

Texto publicado na edição do Actual de 1 de Maio de 2010