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João Vieira Pereira

Querem reduzir o défice? Comecem pela RTP

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

Espanta-me que a discussão em redor da redução da despesa se cinja às obras públicas. O Estado em Portugal desperdiça potes de dinheiro num sem-número de empresas e serviços. Dinheiro que é gerido ao sabor de um qualquer gestor colocado através do tradicional e pouco virtuoso sistema da cunha, na maior parte das vezes política.

O caso mais aberrante de todos é o da RTP. Respirem fundo e preparem-se para o escândalo que vou começar a descrever.

2000

milhões de euros foi quanto a RTP recebeu do Estado entre 2003 e 2009. Quase 300 milhões de euros por ano.

13,8

milhões de euros foi quanto a empresa perdeu no ano passado, apesar das chorudas transferências públicas.

592

milhões de euros é o capital negativo da RTP.

807,9

milhões de euros é o total do passivo bancário.

298

milhões de euros é quanto a empresa vai receber este ano entre indemnizações compensatórias, taxa de audiovisual e aumento de capital.

20

milhões de euros é quanto a RTP queria pagar pelos direitos de transmissão de 60 jogos de futebol do campeonato nacional, em guerra aberta com a TVI, um canal privado.

Este é apenas um exemplo de como se gasta dinheiro em nome de uma causa que ninguém entende. A RTP não faz serviço público, pelo menos a RTP 1. A RTP é afinal financiada para concorrer com a SIC (que pertence ao mesmo grupo que o Expresso) e com a TVI. Só que essas estações ganham dinheiro e a RTP sorve dinheiro. Dinheiro dos impostos e da taxa de audiovisual.

Os montantes em jogo são elevados e no futuro não existe garantia que não seja necessário injectar outros tantos milhões. Se querem cortar despesa comecem por aqui. Fechem ou vendam a RTP a privados e mantenham apenas um canal tipo RTP 2 onde se possa de facto fazer serviço público. Depois façam a mesma análise para outras empresas e serviços. O resultado seria de facto mais proveitoso do que andar a discutir se devemos (e eu acho que sim) adiar obras que nem sequer arrancaram. É que essas ainda não custam nada!

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Maio de 2010