Siga-nos

Perfil

Expresso

João Vieira Pereira

Money talks, bullshit walks

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

Que a Telefónica está desesperada para comprar a Vivo já se sabia. E que para os accionistas portugueses da PT vinha mesmo a calhar o encaixe suplementar também. O que não se antevia é que a conversa onde a Vivo é estratégica, que sem ela a PT morre, e que Portugal só tem a perder com a sua venda, fosse tudo conversa da treta. Enquanto vendiam estes argumentos, os accionistas que constituem um suposto núcleo duro português estavam apenas a tentar que a Telefónica aumentasse o preço pela Vivo. Estratégia que permanece em cima da mesa.

Como dizem os americanos, "Money talks, bullshit walks".

Claro que é difícil resistir a uma oferta de 6,5 mil milhões, um valor que é quase a capitalização bolsista de toda a PT. Se a Telefónica atirar para cima da mesa mais uns milhões a venda é certa.

Nessa altura a PT vira um saco de gatos à luta por milhões. Analistas e media desataram a avançar palpites sobre empresas que a PT pode adquirir no Brasil, mas o mais certo é não comprar nada. Empresas de telecomunicações à venda no Brasil não há muitas e as que eventualmente podem ser compradas são muito caras e muito piores que a Vivo (por alguma razão a Telefónica quer tanto a Vivo). E depois há aquela necessidade premente dos accionistas por dinheiro. As pressões para que a administração decida distribuir um dividendo extra ou fazer uma operação de compra de acções próprias serão fortes, muito fortes.

Os empresários espanhóis conseguiram criar, com a ajuda do Estado, multinacionais, marcas globais e gigantes empresariais como a Telefónica, o Santander, a Repsol, etc. Os portugueses preferem a estratégia "dinheiro no bolso, já". E assim, como se nada fosse, a PT caminha a passos largos para ser uma operadora local, fechada em mercados pequenos e com perspectivas de crescimento reduzidas. O impacto que isso terá na economia nacional é enorme, basta pensar em todas as empresas portuguesas que gravitam na esfera na PT.

Outro grande perdedor será Zeinal Bava. Liderar uma "PTzinha" não está nos seus planos e nesse caso Zeinal sai com a Vivo. Talvez até mais cedo do que se pensa já que a certos accionistas dá mais jeito ter à frente da gestão da nova PT alguém que seja mais mãos largas quando se começar a discutir o que fazer aos muitos mil milhões que a Telefónica vai despejar na PT.

Houve um ministro da Economia que afirmou "Portugal tem que viver com os empresários que tem". Pois tem, e isso explica muita coisa, muita mesmo.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Junho de 2010