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João Vieira Pereira

A grande mentira

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

Hoje, quando estiver a ler esta crónica, é possível que as medidas anticrise que conhece já sejam completamente diferentes. Já não dá para esconder o desnorte e o desgoverno total em que caiu o Executivo perante esta crise.

Em pouco mais de uma semana o Governo conseguiu baralhar toda a gente, a ponto de se notar que mesmo dentro do Governo há quem não perceba as medidas anticrise.

Num dia há mais IRS em Julho, no outro dia em Junho, e no outro dia já é para o ano inteiro. E as obras públicas já pararam, já arrancaram e já pararam outra vez. As medidas foram lançadas sem se medir o impacto das mesmas, com o risco de boa parte dos serviços e empresas públicas poderem paralisar por falta de verbas.

Toda esta confusão de avanços e recuos coloca a nu duas coisas:

1. O primeiro-ministro é uma sombra do que foi. Sócrates perdeu a mão no país, no governo e está a perder a mão no seu partido. Cada vez mais sozinho, luta pela ideia que Portugal vai sair da crise e que com esse crescimento vêm as receitas para acabar com o problema do défice. A receita é simples e verdadeira, curiosamente a mesma fórmula defendida durante muito tempo por Ferro Rodrigues enquanto líder do PS, não fosse o pequeno pormenor de que Portugal não voltará tão cedo a crescer a níveis que permitam gerar receitas para sustentar a elevada despesa do Estado.

2. O plano anticrise foi feito em cima do joelho, com medidas que se revelam, de dia para dia, insuficientes. Até as autoridades europeias terem feito um ultimato a Portugal (e a outros países europeus), nada tinha sido preparado. Há 15 dias não havia, para o Governo, qualquer problema... Isto apesar dos avisos que desde a falência da Lehman Brothers, em Setembro de 2008, eram feitos quase todos os dias.

Vivemos o último ano e meio numa grande mentira retratada pela política económica e orçamental onde houve espaço para tudo, nomeadamente para aumentos salariais na função pública e lançamento de obras públicas que farão no curto e médio prazo disparar a despesa.

A julgar por esta semana desastrosa, a grande mentira continua alimentada pela obsessão de não querer ver. O mais provável é que este plano não seja suficiente e em vez de ter um PEC à séria arriscamo-nos a ter uma série de PECzinhos, um atrás do outro, para remediar o que remendo não tem.

O Governo perdeu mais uma oportunidade de ouro para lançar a tão necessária reforma das finanças públicas. Tudo porque José Sócrates insiste e insiste e insiste em bater com a cabeça na parede. Falta saber quem é mais resistente, a parede ou a cabeça de Sócrates.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010