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João Vieira Pereira

13 de Maio de 2010

João Vieira Pereira (www.expresso.pt)

Meu filho, escrevo para te contar porque é que o teu país é uma sombra do que poderia ser. Aqui no ano de 2010 somos perseguidos por um monstro. Começou a ser alimentado no início dos anos 90 e desde então serviu de sustento a todo um país. No virar do século alguém lançou o alerta de que o monstro estava quase a comer a mão, o braço e o corpo de quem o alimentou e desde então todos têm dito que o vão matar. Durante 10 anos mentiram à esquerda e à direita sobre essas intenções, reféns que estão desse monstro.

Por mais promessas feitas, os cortes não passaram de intenções que esbarraram nos interesses instalados, nas urnas dos votos e na cunha política que alimentou nomeações atrás de nomeações. Não me lembro do último político português que esteve na política por motivos altruístas... talvez até exista, mas eu não o conheço...

De todas as vezes gritaram 'agora é que é!' mas, em 10 anos, nada fizeram para sequer ferir o monstro, no máximo umas festinhas para ajudar a passar a fome que sentiu, de vez em quando.

Agora em 2010, falidos, perceberam que já ninguém quer emprestar dinheiro para alimentar o bicho e entraram em pânico. Gritaram que ia ser diferente mas a solução é a mesma de sempre: aumentar impostos, aumentar impostos e aumentar impostos.

O Estado gasta agora a maior parte do seu dinheiro em salários. Ainda no ano de 2009 aumentaram os funcionários públicos em 2,9% (porque havia eleições), logo depois decidiram aumentar os impostos porque todos têm de pagar a crise criada pela ganância de um Partido ao serviço de um tal de José Sócrates (procura na Internet que ainda deves encontrar umas referências sobre ele). Cortar nestes salários é que ninguém teve a coragem de fazer.

Outra grande fatia de despesa são as pensões, e apesar de em 2010 haver reformas mais do que milionárias não se mexeu em nada porque existe uma coisa que são os direitos adquiridos (espero que isso seja já uma coisa do passado).

A saúde é o terceiro sorvedouro de dinheiro, apesar disso proliferam os hospitais particulares porque os públicos funcionam mal, têm listas de espera que matam os doentes e são um caos de desperdício. Aos anos que prometem reformas estruturais de fundo... Que nunca irão acontecer, pois não?

Também na escola pública se gasta muito dinheiro. Apesar disso os professores continuam a não quererem ser avaliados, as provas são facílimas para que se suba em rankings internacionais, os pais não querem saber, e quem pode coloca os filhos em colégios privados.

A lista é interminável mas a receita é sempre a mesma, promessas não cumpridas, cortes de cosmética, principalmente em investimento público, complacência com o desperdício e mais impostos.

Espero que percebas agora porque Portugal desperdiçou durante anos todo o potencial que tinha. O dia 13 de Maio de 2010 não te diz nada, porque foi apenas mais um dos muitos em que foram apresentados planos fajutos de cortes de despesa pública.

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de Maio de 2010