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Expresso

João Pereira Coutinho

Toca e foge

Nos manuais da especialidade, afirma-se que o 11 de Setembro inaugurou um capítulo na história do mundo. Talvez seja mais correcto afirmar que o 11 de Setembro se limitou a fechar uma longa narrativa de ataques e recuos desde, pelo menos, 1979. Nesse fatídico ano, que um dia será lembrado como hoje lembramos um certo filme passado na Rússia de 1917, 'estudantes' iranianos, como lhes chamou o delicioso Jimmy Carter, assaltavam a embaixada americana em Teerão e, sem ambiguidades ou maneiras, declaravam uma luta de morte contra o Grande Satã. O Grande Satã não entendeu as coisas da mesma forma e nem mesmo a resolução de Reagan em terminar com o impasse, 444 dias depois (Carter foi despachado num único mandato), impediu a emissão deste primeiro sinal: um sinal de fraqueza que o islamismo armado reconheceu e agradeceu. Reconheceu e agradeceu no Líbano, logo em 1983, quando o Hezbollah inaugurava a moda dos ataques suicidas (240 americanos mortos) para ver Washington fazer as malas e fugir. Reconheceu e agradeceu na Somália, quando os corpos dos soldados americanos eram arrastados pelas ruas da capital e Clinton, com impressionante coragem, mandava retirar os seus homens sob balas. Não admira que Osama bin Laden, com reconhecível lucidez, tenha comentado o facto: os americanos servem para fazer 'guerras frias', nunca para as guerras quentes. O 11 de Setembro foi o resultado lógico de quem passara vinte anos em fuga.

É neste contexto que se entendem as palavras de Bush no quarto aniversário da guerra do Iraque. A retirada pode inaugurar um "contágio de violência" que põe em risco a segurança do Ocidente? Pois pode. Aconteceu no passado: quando a cada recuo se sucedeu um avanço; e a cada avanço se sucedeu um novo recuo. Repetir os erros é ignorar a natureza simbólica, e não apenas política ou militar, desta longa guerra com uma doutrina armada. Tocar e fugir, ontem como hoje, não costuma impressionar a besta.

Inteligência artificial

Na passada semana, por mero acaso, parei na TVI. Razão simpática: o Carlos Quevedo estava em directo e ouvir o Carlos é sempre um motivo para ficar (embora a Marisa Cruz seja um argumento decisivo). Fiquei, diverti-me e só depois li a imprensa. Parece que o programa 'A Bela e o Mestre', que arrasou as audiências, ofende a consciência do país e, pior, a consciência das mulheres. Porquê? Porque repete o velho cliché da mulher bonita e burra, a precisar de educação sentimental por macho feio e brilhante. Em condições normais, este seria o momento para lembrar que: a) falamos de televisão; e b) falamos de uma brincadeira. Mas não vale a pena perder tempo com um país onde a ausência de humor é um modo de vida. Melhor confessar que as mulheres que eu conheço, bonitas e invariavelmente inteligentes, são as primeiras a rir com a piada. A histeria que corre por aí, suspeito, é coisa de mulher feia e burra - a combinação mais provável que há no mundo.

João Pereira Coutinho