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Expresso

João Pereira Coutinho

Os erros de Menezes

Depois da vitória no PSD, Luís Filipe Menezes tinha dois erros para cometer. Ou, melhor dizendo, para não cometer. O primeiro, menor mas relevante, era ficar na Câmara de Gaia e, até 2009, continuar com um fardo que, a qualquer altura, pode ser demasiado pesado. Menezes escolheu ficar, citando o exemplo de Sampaio, que acumulou Lisboa com o PS. Existe uma diferença: Lisboa não é Gaia e o que Menezes ganha com Gaia, em prestígio e visibilidade, não compensa o que ele pode perder, sobretudo se as contas continuarem a patinar e ele, como presidente, for o responsável máximo pela casa. As nossas autarquias não se distinguem pela sanidade financeira? Sem dúvida. Mas Menezes não será um autarca qualquer e a imprensa, agora, não olhará para o caso com a displicência que se concede aos regionais; Gaia será uma amostra, em ponto pequeno, do talento político de um homem que tenciona governar o país.

Mas o segundo erro, gigantesco e fatal, dá pelo nome de Pedro Santana Lopes. Ninguém acredita, em juízo perfeito, que Santana era uma preferência de Menezes; provavelmente, é uma amarga inevitabilidade, para não falar de imposição. Mas é nestes momentos que se conhece a fibra dos líderes. Ao entregar a bancada a Santana, Menezes mostrou ter pouca fibra e muita ingenuidade. No seu íntimo optimista, e apesar de conhecer o personagem, o novo líder do PSD ainda acredita que talvez Santana seja controlável: por ele, por Mota Amaral ou pelos Três Porquinhos. Santana não é controlável porque, muito compreensivelmente, o homem não regressa para servir; regressa para servir-se e preparar a vingança sobre os seus coveiros de 2004. Infelizmente para Menezes, a vingança só teria sentido se a herança de Santana fosse um caso exemplar. Não é. E cada vez que Santana criticar o primeiro-ministro, este só terá de relembrar ao país o nome de quem o critica. Menezes pode construir o seu caminho para 2009; e pode revelar intenções meritórias, como a ideia de uma nova Constituição; mas por cada tábua erguida, o regresso de Santana será um prego no caixão.

Lá vem o Nobel

Anualmente, os prémios Nobel lá chegam para animar a malta. Tirando as disciplinas pesadas, como a Física e a Medicina, que não são para qualquer um, a Literatura e a Paz são coutada colectiva. Não fujo à regra e, com a devia vénia, aplaudo o prémio para Doris Lessing, provavelmente a melhor escritora (ainda) viva no mundo anglo-americano. Que a vitória de Lessing tenha deixado a nossa crítica 'especializada' em silêncio, eis um belo retrato da nossa crítica 'especializada'. E sobre Al Gore, a confirmação do que já suspeitava: depois de Jimmy Carter (em 2002), o comité resolveu dar mais uma canelada no Presidente Bush. Os entusiastas dizem que não; e acrescentam que os esforços de Gore puseram o aquecimento global no mapa, apesar de um tribunal de Londres ter apontado erros grosseiros, ou grosseiras manipulações, no documentário do homem. Quando na luta política qualquer mentira serve, a luta deixa de ser luta. É fanatismo. Não se comenta o fanatismo.

João Pereira Coutinho