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Expresso

João Pereira Coutinho

Operação Shylock

Em 1993, nos alvores do fatídico 'processo de paz' para o Médio-Oriente, o escritor Philip Roth publicou um livro pouco lido e nada citado. Entende-se porquê. 'Operação Shylock' antecipava, com catorze anos de avanço, uma questão que saltou das páginas da ficção para os dramas da realidade: e se Israel passar por um 'segundo Holocausto', pulverizado por ataque nuclear? O cenário, em 1993 e para Roth, já não estava nessa possibilidade; estava na sua absoluta inevitabilidade, o que implicava saber como salvar os judeus de um fim certo. Roth concede uma resposta e a resposta não é aconselhável a estômagos sensíveis: a única forma de salvar os judeus de Israel passa pelo abandono de Israel. Se o "sionismo" criara o Estado judaico, caberia ao "diasporismo" dispersar os judeus. Para o autor, a criação do Estado judaico fora uma necessidade que cumprira o seu papel. Agora, caberia aos judeus de procedência europeia regressar ao velho continente e, através do regresso, evitar o extermínio. Por maior que seja o anti-semitismo dos europeus de hoje, ele será menor, e menos letal, do que os desejos genocidas que imperam no Médio-Oriente.

É impossível não pensar neste esquecido e desconfortável livro quando se contempla a telenovela iraniana e as respostas do mundo a ela. Só esta semana, o Oxford Research Group veio publicamente repetir o cardápio conhecido: com alvos fora do alcance militar e a impossibilidade de travar o processo no futuro, um ataque ao Irão é inviável. A solução passa pelo 'diálogo', partindo do pressuposto de que o 'diálogo', que não resultou no passado, acabará por resultar no futuro.

Talvez resulte. Talvez não resulte. Mas, se não resultar e o Irão chegar impunemente à bomba, aos judeus de Israel só restará mesmo fazer uma coisa: as malas.

A montanha e o rato

Espectáculo admirável: o Governo apresenta os seus princípios para 'reformar' a Administração Pública e os sindicatos soltam leves rosnidos para consumo interno. No essencial, Governo e sindicatos parecem viver numa harmonia bucólica, que seria crime beliscar. Coisa estranha. Quando José Sócrates chegou ao poder, a ideia, se bem me lembro, era reduzir 75 mil funcionários da Administração Pública, um passo caridoso para emagrecer um Estado balofo e perdulário. Mas havia um problema: como despedir 75 mil funcionários sem levar com os sindicatos e o país em cima? A solução, se merece o nome, foi não encontrar nenhuma: passar os trabalhadores para contratos individuais de trabalho pode contentar na forma; não altera na essência, porque os trabalhadores continuarão a ser inamovíveis. Verdade que Teixeira dos Santos garante que dois anos de incompetências várias darão lugar a processo e, quem sabe, a despedimento. Trocado por miúdos, o que o ministro nos diz é que é necessário ser praticamente um "serial killer" para que o Estado comece a cortar onde realmente dói.

Aqueles que acreditaram na Administração Pública como 'a mãe de todas as reformas' devem começar a recolher as bandeiras. A montanha do Rato ameaça parir um.

João Pereira Coutinho