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Expresso

João Pereira Coutinho

Não há justiça

O ministro da Justiça comunicou ao país que o 'monstro' emagrecera: em 1,7 milhões de processos pendentes, o ano de 2006 encerrou com menos 6.675 em fila de espera. Isto, que seria motivo para uma silenciosa vergonha, proporcionou o espectáculo da praxe e nem Sócrates faltou à sua deixa. Confrontado com os números, o primeiro-ministro declarou a coisa "extraordinária" e, com os olhos postos em Alberto Costa, mais acrescentou que nunca vira beleza igual. Não sei se os dois se abraçaram em palco, sob forte aplauso da plateia. Duvido. Primeiro, porque estes espectáculos começam a dar sinais de esgotamento. E, depois, porque convém não abusar da sorte: não foram apenas os profissionais do ramo a sublinhar o 'excesso' das comemorações. Qualquer português aprende por experiência dolorosa que a desistência, nos tribunais, é uma forma de resistência. E quando não é o cidadão a desistir, é o próprio sistema que desiste por ele, ao perdoar roubalheiras menores (como os cheques até 150 euros), a cobrança de custas judiciais (até 400 euros, se o cidadão concordar em desaparecer) e ao lançar dissimulados convites para que as pessoas tenham juízo, fujam dos tribunais e, como bónus, sejam isentas de pagar custas e ainda abatam qualquer coisa nos impostos. O 'sucesso' da nossa justiça não se faz pelo exercício da dita; faz-se pela suspensão da dita. Que isto seja motivo para festejos é insulto que merecia um processo. Se, evidentemente, um processo resolvesse alguma coisa.

Estados críticos

Passei por Peter O'Toole duas vezes na vida. A primeira, vi-o nos palcos. A segunda, fora dos palcos, embora a voz e os gestos prolongassem o número. Levantei-me da mesa e, com imaculada saloiíce, cumprimentei o Lawrence da Arábia da minha infância. O senhor agradeceu, inquiriu a procedência e depois confessou que andara por cá. 'Very much like Ireland, you know?' Não, não sabia. Mas registo e partilho: o encontro e o encómio.

Não admira que eu seja imparcial sobre O'Toole. E, confrontado com as críticas ao último filme ('Vénus'), o meu coração tenha mirrado de mansinho. Sofrimento inútil: como alguém dizia sobre Agustina e Oliveira, não creio que seja possível ter as crónicas de Jeffrey Bernard em cima da mesa e um filme como 'Vénus' debaixo da cama. Porque 'Vénus', na sua rudeza, no seu grotesco, no seu gosto pelo patético; mas também no seu encantamento, no culto do "understatement" e na forma como dessacraliza a alta cultura, é um filme inglês até ao tutano. Não sobre um velho com os caninos de fora por Lolita provinciana e proletária. 'Vénus' não é um filme sobre o sexo, mas sobre aquilo que só o sexo permite: uma promessa temporária de felicidade. E sobre O'Toole, entendo que o seu cabotinismo possa ofender algumas sensibilidades. Mas o cabotinismo de O'Toole só é possível quando a segunda natureza do homem, longamente construída entre sonetos de Shakespeare e insultos etílicos no Soho londrino, foi lentamente substituindo a primeira. Não é preciso ver para crer. Melhor ouvir para crer: uma voz que não é propriamente uma voz; mas um Stradivarius cansado que tocou tudo o que havia para tocar. E que sabe, sem sentimentalismo ou deslumbramento, que a poesia do bardo nos consola e redime. E que Ofélia, no fundo, no fundo, não passava de uma aventesma.

jpcoutinho@jpcoutinho.com