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Expresso

João Pereira Coutinho

As cinzas da História

Em 1624, o Papa Urbano VIII resolveu proibir o tabaco por acreditar que o uso da coisa corrompia sexualmente os fiéis. A proibição seria removida no século seguinte por Bento XIII e, em 1779, o Vaticano acabaria mesmo por abrir a sua própria fábrica de cigarros. Exemplos deste tipo, que a revista 'The Atlantic' recorda, podem ser aplicados a diversos períodos da história onde a proibição do vício não durou muito. Foi assim no Império Otomano, onde as perseguições antitabágicas do sultão Murad IV, que proporcionavam 18 execuções diárias, não sobreviveram ao seu sucessor, curiosamente conhecido por Ibrahim, o Demente. Foi assim na Rússia seiscentista, onde as terapias siberianas que o czar Michael ministrava aos fumadores acabariam por ser enterradas no último quartel do século XVII. E foi assim com o inevitável Adolf Hitler, santo padroeiro das patrulhas antitabágicas modernas. Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, o tabaco foi eleito inimigo mortal do Reich e uma ameaça directa à pureza da raça. De acordo com o delirante Adolf, o tabaco era o responsável por tudo: doença, impotência, comunismo (não necessariamente por esta ordem). As campanhas que se seguiram, de uma violência e desumanidade que só as actuais igualam, não sobreviveram ao descalabro do Reich.

Convém recordar a inútil história da perseguição antitabágica quando o Governo português anda, semana sim, semana não, a dançar o tango com os seus próprios instintos autoritários. Às segundas, quartas e sextas, Correia de Campos quer proibir o fumo em bares e restaurantes com menos de 100m2, ou seja, em praticamente todos. Às terças, quintas e sábados, o ministro tem dúvidas e o grupo parlamentar do PS admite abrandar a sua própria histeria persecutória. Não vale a pena recordar ao ministro a natureza iliberal da medida, que retira aos donos dos estabelecimentos o direito de escolherem o seu tipo de clientela. Melhor aconselhar o dr. Correia de Campos a olhar para o passado com alguma humildade. Porque só existe uma coisa pior do que uma lei autoritária e clamorosamente imbecil. É uma lei que o tempo, cedo ou tarde, acabará por esmagar contra o cinzeiro da história.

Alarme e riso

O que dirá Santana Lopes do novo blogue de António Costa e "sus muchachos"? Aqui há uns anos, quando Santana não gostava de um colunista (fui um deles), a solução era escrever nos jornais prosa de resposta. O gesto, pela sua evidente indignidade, fazia rir a plateia culta. E agora? Agora, António Costa e José Magalhães tencionam policiar o que é dito 'cá fora', uma forma indirecta de fazer propaganda ao que se passa 'lá dentro'. É o próprio Magalhães quem, com apreciável despudor, confessa: "O Estado não pode desperdiçar os meios que a internet oferece". Curiosamente, não passou pela cabeça do dr. Magalhães a natureza indigna desta frase, que nenhuma democracia liberal poderia escutar de cabeça limpa. Felizmente para o PS, este não é um país onde a tradição liberal seja pujante. Se fosse, a concentração dos sistemas de informação e segurança na figura do eng. Sócrates e a tentativa iníqua de a justificar com propaganda cibernética bastariam para degradar o Governo a golpes de alarme e riso.

João Pereira Coutinho