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Expresso

João Pereira Coutinho

A vida negra

Serão os brancos mais inteligentes do que os pretos? E serão os asiáticos mais inteligentes do que os brancos? Existem cientistas que respondem afirmativamente à segunda questão. Eu, confesso, tenho dúvidas: acreditar que o actor Jackie Chan é mais inteligente do que a minha empregada (uma angolana que, no espaço de um ano, já conseguiu três aumentos), é uma tese que desafia a credulidade. Claro que, no limite, a tese também nega a primeira pergunta: três aumentos num ano só demonstram a burrice do patrão branco. Logo, os pretos são mais inteligentes do que os brancos? Eis o problema quando falamos da 'inteligência' das 'raças': generalizar a grupos humanos experiências de natureza individual. Para não falar da palavra 'raça', discutível ou ambígua; ou da própria palavra 'inteligência', quando existem diferentes tipos de inteligência: fazer uma equação; pintar um quadro; dançar; conseguir três aumentos num ano.

Infelizmente, é impossível discutir estas questões em ambientes de histeria. Que o diga James Watson, um dos dois cientistas que descobriram a estrutura do ADN, que sugeriu em entrevista que pretos e brancos não jogam na mesma equipa da inteligência humana. Ou, tal como Watson questiona na sua prosa, será possível que seres humanos separados pela geografia tenham evoluído intelectualmente de formas diferentes? Ou os poderes da razão são iguais para todos? Pessoalmente, a minha costela marxista acredita que a 'estrutura' social é determinante para apurar os neurónios da criatura: um branco numa aldeia africana miserável dificilmente seria um Nobel da Física. Mas eu teria gostado de ouvir Watson sobre a matéria, caso o Museu da Ciência de Londres não tivesse apontado uma arma à própria cabeça da instituição, calando o homem perante as fogueiras das patrulhas. O gesto, pelos vistos, encheu de gozo alguns zelotes que, confrontados com as ideias mais polémicas ou ultrajantes, não estão dispostos a debatê-las ou a refutá-las; mas a mandar chamar o pelotão de fuzilamento, provavelmente por temerem que elas possam ser verdade. Pobre gente. E pobre Watson: bastariam uns meses com a minha empregada para que ela conseguisse mais um aumento e lhe destruísse a teoria.

E aplausos para...

Joaquim Chissano. Num continente devastado por misérias políticas, económicas e até morais, o antigo presidente de Moçambique recebeu o Prémio de Boa Governação da Fundação Mo Ibrahim. O prémio não vale apenas pela generosidade da cifra (5 milhões de dólares). Vale, desde logo, pelas condições que impõe aos eventuais candidatos: que tenham sido eleitos democraticamente; que tenham governado com honestidade e nos interesses do povo; e que, cumprido o mandato, se afastem do poder. Chissano cumpriu e até excedeu os requisitos. Mas que seja necessário lembrá-los - no fundo, que seja necessário lembrar estas condições mínimas de decência democrática, eis um retrato que diz tudo sobre a rotina habitual de corrupção e tirania em que grande parte do continente foi mergulhando com toda a normalidade.

João Pereira Coutinho