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Expresso

João Carlos Espada

Surpresas americanas

Viajar para a América, nos dias que correm, pode constituir uma sucessão de surpresas para um europeu.

Lewis 'Scooter' Libby, ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, acaba de ser condenado por perjúrio. A sentença será conhecida a 5 de Junho e pode incluir prisão de um ano e meio a três (num máximo de 25!). A origem do caso remonta à 'fuga' para a imprensa do nome de uma agente da CIA cujo marido contestara publicamente os motivos da intervenção no Iraque.

Os habituais profissionais anti-Bush já começaram a dizer que Libby é apenas o bode expiatório da Administração. Mas, para os estupefactos povos do mundo inteiro, trata-se de mais uma caso surpreendente da excepcionalidade americana: em que outro país do mundo poderia o chefe de gabinete do vice-presidente ser julgado e condenado por perjúrio?

"Isto só seria igualmente possível em Inglaterra", afirmam peremptoriamente três eurodeputados britânicos, do Partido Conservador, de visita à Heritage Foundation, em Washington. Apresentam com orgulho as suas origens sociais modestas (um deles é indiano) e dedicam as suas intervenções à defesa do comércio livre. "Só os ricos ganham com o proteccionismo. A escolha e a concorrência são a favor dos pobres". A afirmação parece óbvia para todos os assistentes da sessão - mas seria maioritariamente considerada bizarra na Europa.

A mesma ideia é repetida na cerimónia de homenagem aos 80 anos do prof. Leonard Liggio, amigo e colaborador de Friedrich Hayek. A cerimónia é promovida por várias instituições liberais americanas: Heritage Foundation, Liberty Fund, Institute for Humane Studies, entre outras.

No final, Leonard Liggio começa por agradecer aos seus bisavós paternos, ele albanês, ela italiana. Ambos fugiram da pobreza europeia, provocada pelo proteccionismo, e procuraram uma vida melhor na economia livre da América. Foi aqui que se conheceram e casaram, permitindo a Liggio nascer num país livre e cheio de oportunidades. "A liberdade é a esperança dos pobres - conclui Liggio - e o proteccionismo é o privilégio dos ricos. A Europa ainda não compreendeu isto inteiramente, e a América Latina não compreendeu de todo. Mas a Ásia está a aprender a lição americana a um ritmo vertiginoso".

De regresso ao Metropolitan Club, no centro de Washington, sou surpreendido por um nevão tardio e uma barragem policial na rua. O vice-presidente Dick Cheney parece ser o orador convidado num jantar privado no clube. Estará mais alguma coisa para acontecer num único dia em Washington? Apenas mais uma, de facto: a minha bagagem ficou em Londres!

João Carlos Espada