Siga-nos

Perfil

Expresso

João Carlos Espada

Sobre o Nobel da Medicina

Três cientistas - um britânico, um ítalo-americano e um anglo-americano - foram este ano distinguidos com o Nobel da medicina. As suas histórias, quer pessoais quer profissionais, exprimem a beleza da aventura científica.

O Comité Nobel sueco explicou a escolha pela descoberta "dos princípios que permitem introduzir alterações nos genes do ratinho através da utilização de células estaminais embrionárias". Esta descoberta poderá ter importantes consequências no combate a centenas de doenças humanas, entre as quais se encontram diversos tipos de cancro, doenças cardíacas, diabetes, apenas para citar algumas.

É certo que as experiências com células estaminais envolvem problemas morais delicados que não devem simplesmente ser ignorados em nome do progresso do conhecimento. Mas, ressalvado este domínio importante que não podemos discutir neste espaço, vale também a pena observar o percurso inesperado e imprevisível da descoberta que agora mereceu o Nobel.

Em primeiro lugar, é significativo que três cientistas estivessem a confluir na mesma direcção de pesquisa sem estarem em contacto entre si: conheceram-se apenas no final da década de 1980, quando já há muitos anos trabalhavam em sentidos comuns. Isto contraria a lenda pós-moderna de que a ciência é uma pura construção social sem suporte objectivo. Foi este suporte objectivo que permitiu a confluência dos resultados obtidos por três pesquisadores independentes.

Também sai refutada a lenda pós-moderna de que o conceito de verdade é produto do consenso social e que este consenso é sobretudo uma expressão de poder. No início dos anos 1980, os National Institutes of Health norte-americanos recusaram financiamento a um dos laureados (o ítalo-americano Mário Capecchi), por considerarem inverosímil o seu projecto de investigação. O mesmo aconteceu ao britânico Martin Evans, que viu recusado por razões semelhantes o seu projecto junto do Medical Research Council do Reino Unido. Por outras palavras, o consenso dominante foi obrigado a mudar perante a evidência da descoberta científica - e não o contrário.

Esta mudança foi possível porque três cientistas corajosos - um deles, Mário Capecchi, sobrevivera quatro anos sozinho, em Itália, quando criança, enquanto a mãe estava deportada no campo nazi de Dachau - preferiram persistir na busca da verdade, contra a opinião dominante dos seus pares. Manda também a verdade, no entanto, que seja sublinhado o papel das grandes instituições universitárias - Oxford, Cambridge, Harvard, entre outras - que os educaram e deram condições ao seu percurso solitário.

João Carlos Espada