Siga-nos

Perfil

Expresso

João Carlos Espada

Mário Pinto

Terá decorrido ontem em Lisboa, na Universidade Católica, uma homenagem ao Professor Mário Pinto (escrevo antes do evento). Trata-se de um acto de justiça e reconhecimento. Mas qualquer homenagem a Mário Pinto fica sempre aquém da dimensão da personalidade e da obra do homenageado. A sua discrição e o seu desapego a cargos e honrarias são hoje as mesmas que sempre foram. Mas a verdade é que o seu legado é imenso, abrange sucessivas gerações e inspira inúmeras instituições que ajudou a criar - e às quais nada pediu em troca.

Católico convicto e observante, Mário Pinto esteve sempre do lado da tradição cristã da liberdade. No antigo regime, esteve ao lado do bispo do Porto e da Ala Liberal de Sá Carneiro. Foi deputado constituinte pelo PPD. Esteve no início da batalha contra a unicidade sindical e o restante estatismo jacobino, ajudando a criar a UGT. Mas a paixão da sua vida tem sido a batalha pela liberdade de educação, contra o Estado (des)educador - um tema que seria útil recordar no actual debate terceiro-mundista sobre a alegada reforma do nosso sistema soviético de educação.

Devo ao Professor Mário Pinto muito mais do que pode ser definido. Em 1996, foi ele que me desafiou a criar, e que comigo criou, o Instituto de Estudos Políticos na Universidade Católica Portuguesa. Também foi ele que esteve na origem da revista 'Nova Cidadania'. E foi ainda com ele que fundámos a secção portuguesa da International Churchill Society.

Em todos estes projectos têm convergido pessoas, sobretudo jovens, muitos jovens, com diferentes inclinações e sensibilidades. Mas creio que todos partilham uma atitude comum - em grande parte personificada pela atitude do Professor Mário Pinto. Em Portugal, esta atitude encerra um paradoxo: embora esteja largamente disseminada em estado latente, não goza de comparável articulação expressa. Esta é talvez a razão pela qual, ao longo da nossa história e sobretudo ao longo do século XX, essa atitude ficou, muitas vezes, marginalizada por radicalismos estatistas rivais.

Gostaria de lhe chamar 'disposição toquevilliana'. Raymond Aron descrevia-a como uma atitude de moderação e equilíbrio, e de fundamental compromisso com a liberdade e com a sociedade civil. Esta atitude nunca chegara a vingar no panorama da cultura política francesa - seduzida ciclicamente pelo "conflito estéril entre o Antigo Regime e a Revolução". Em Portugal, talvez por influência da chamada "pátria das luzes", dogmatismos estatistas rivais também tendem a conquistar as paixões políticas. Serenamente indiferente ao apelo mediático desses dogmatismos rivais, a voz e o exemplo do Professor Mário Pinto apontam entre nós um outro caminho: o da liberdade, do equilíbrio e da moderação.

João Carlos Espada