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Expresso

João Carlos Espada

Lord Deedes, 1913-2007

Morreu na sexta-feira da semana passada, com 94 anos, o meu cronista preferido: Lord Deedes, ou como preferia ser chamado, Bill Deedes. A rainha, o primeiro-ministro, a sra. Thatcher, jornalistas, políticos e leitores do mundo inteiro inundaram a redacção do 'Daily' e 'Sunday Telegraph' de Londres com testemunhos de pesar, carinho e admiração. Morria um dos últimos representantes de uma Inglaterra que nos habituámos a admirar – e em cuja permanência nos esforçamos por continuar a acreditar.

Bill iniciou a carreira jornalística aos 18 anos e manteve-a durante 76 anos, até dois dias antes de morrer. Nessa quarta-feira, dia 15 de Agosto, ainda escrevia na cama a sua última crónica – a primeira da sua carreira a falhar o prazo de entrega.

Na sua última crónica publicada, a 3 de Agosto, Bill Deedes comparava os campos de morte nazis à tragédia humana de Darfur. Os únicos que poderiam pôr termo à tragédia de Darfur, argumentava Deedes, seriam os americanos. Mas o mundo preferia culpar os americanos de todos os males, em vez de enfrentar a verdadeira ameaça islâmica global.

Durante a II Guerra, Bill participou na segunda fase do desembarque na Normandia, servindo no King's Royal Rifle Corps, e obteve a Military Cross, por bravura em combate. De regresso a Londres, reingressou no 'Daily Telegraph'. Em 1947, foi eleito para o Parlamento na bancada conservadora. Em 1954, Churchill nomeou-o para uma posição júnior no seu Governo. Bill Deedes viria ainda a ser ministro do Governo de Macmillan, entre 1962 e 1964.

Entre 1974 e 1986, Bill Deedes foi director do 'Daily Telegraph'. Sendo amigo íntimo e parceiro de golfe de Denis Thatcher, Bill apoiou desde o início a sra. Thatcher. Mas recusou alinhar o jornal pelo 'thatcherismo', o que desapontou alguns jovens jornalistas impetuosos, entre os quais o meu amigo John O'Sullivan.

Quando deixou de ser director, em 1986, Bill permaneceu no jornal, como repórter e cronista. Tratou sempre os seus jovens sucessores com cortesia, nunca se deixando envolver em intrigas de poder. Almoçava num restaurante do Strand (Paradiso e Inferno), para onde se deslocava de autocarro, e onde bebia a sua caneca de cerveja. Ao fim da tarde, bebia whisky & soda e regressava à sua casa de campo em Kent. Comprara-a, em 1946, com a sua mulher, Hilary Branfoot, falecida em 2004, com quem teve dois filhos e três filhas. Devoto cristão, Bill promovia inúmeras acções humanitárias, tendo-se associado à batalha da princesa Diana contra as minas anti-pessoais em África.

"Humildade, compaixão, dedicação, reserva: Bill Deedes exemplificava algumas das melhores virtudes britânicas" – escreveu certeiramente o 'Sunday Telegraph' em editorial.

João Carlos Eapada