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Expresso

João Carlos Espada

Férias oxonianas

Can Oxford be Improved?' é o título de um sugestivo livrinho recém-publicado por Anthony Kenny e Robert Kenny (Exeter, UK, & Charlottesville, USA: Imprint Academic, 2007). Os autores são pai e filho, partilhando uma devoção por Oxford. Sir Anthony foi Master de Balliol College, um dos colégios mais antigos, e presidente da British Academy. Robert viveu 14 anos em casas da Universidade e o seu primeiro emprego consistiu em devolver livros às prateleiras da Bodleian Library. Mas atreveu-se a estudar 'no outro lugar' e é actualmente director de uma consultora.

À pergunta do título, os autores parecem responder 'talvez, mas devagar'. Oxford nunca gostou de mudanças bruscas, muito menos de revoluções, e, sobretudo, nunca suportou que fossem impostas de fora. Mesmo de dentro, as reformas centrais são difíceis porque a universidade é uma confederação de colégios, com vasta autonomia e finanças próprias.

O último político a tentar uma interferência directa na vida de um colégio (o Magdalen, ler Modelin) foi o Rei James II, em 1688. Seguiu-se uma revolução – a última na história da Inglaterra – que o forçou a abdicar com vista ao restabelecimento das antigas liberdades e garantias constitucionais. O episódio foi suavemente recordado quando Gordon Brown, então ministro das Finanças, criticou recentemente a não admissão de uma aluna pelo mesmo colégio.

Em 1850, o Parlamento atreveu-se a criar a primeira Royal Commission para estudar a reforma da Universidade. O chanceler de Oxford, o duque de Wellington, garantiu, indignado, que nunca leria o Livro Azul produzido pela dita comissão. Uma noite, levou-o para a cama, armado de um lápis poderoso. Morreu nessa noite, durante o sono.

Em 1964, perante a ameaça de uma nova Royal Commission, a Universidade criou a primeira comissão central – em 800 anos – para estudar uma reforma global. Lord Franks, que liderava a comissão, convocou para uma entrevista o reitor de All Souls, um colégio sem alunos e com uma excelente garrafeira. John Sparrow, o dito reitor, perguntou quem era esse Lord Franks. Quando lhe explicaram que liderava uma comissão para a reforma da universidade, respondeu celebremente: "Reform?... Reform?... Aren't things bad enough already?".

Para os partidários da mudança centralizada, e são tantos no mundo pós-moderno, Oxford é simplesmente um anacronismo. Não é o caso de Anthony e Robert Kenny. Por isso produziram um livrinho apaixonante, muito adequado para férias. Está cheio de histórias deliciosas e de... poucas propostas de reforma centralizada.

João Carlos Espada