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Expresso

João Carlos Espada

A rainha, o penteado e o neto dela

Há mais de 50 anos que Isabel II mantém a sua dignidade, o seu sentido de dever e o mesmo penteado": foi com estas palavras que Helen Mirren recebeu o Óscar de melhor actriz no filme 'A Rainha', que aqui comentei há algumas semanas.

A frase não revela apenas sentido de humor. Exprime uma admiração incompreensível para o clima intelectual dominante nas chamadas "élites metropolitanas", também conhecidas por "élites metrossexuais". Alguns consideram-na mesmo inadmissível, dado que Helen Mirren se apresenta como trabalhista assumida.

No entanto, essa admiração faz todo o sentido e exprime o chamado "milagre da Inglaterra moderna": não que ela tenha evitado a revolução, mas que tenha assimilado tantas revoluções - industrial, social, cultural - sem ter recorrido à Revolução. Parafraseando Edmund Burke, isso deve-se a que, quando o barco inglês se inclina muito para um lado, há sempre gente que fica do outro lado, a tentar reequilibrar o navio. Por outras palavras, a uniformidade dogmática não é um pecado inglês. E a rainha está lá a lembrar-nos isso mesmo.

Ela resistiu às modas passageiras, mantendo o mesmo penteado. E resistiu à moda politicamente correcta da chamada "libertação do eu", recordando que o sentido de dever - como também recordou Edmund Burke - não depende do capricho. O dever é o que temos de fazer, apeteça-nos ou não. E o primeiro mandamento da "gentlemanship" é respeitar o sentido de dever.

Isso mesmo é ilustrado pela recente notícia de que o neto da rainha, o príncipe Harry, será brevemente destacado para o Iraque. O mais interessante é que não sabemos se a família real concorda ou não com a intervenção no Iraque. Em rigor, não é isso que está em causa. As tropas inglesas estão no Iraque por decisão do Parlamento. O príncipe Harry cumpre o seu dever de militar e vai para o Iraque. Ponto final.

Seria útil recordar estes factos sobre o sentido de dever quando nos confrontamos com as notícias de aumento vertiginoso da violência nas nossas escolas; ou com o aumento do consumo de drogas e de insegurança nas ruas. Existe alguma referência ao sentido de dever nas novas teorias das chamadas "ciências da educação"?

E seria útil recordá-los ao senador Kerry, ex-candidato democrata à Casa Branca. Ele disse que os filhos dos pobres iam morrer no Iraque, enquanto os dos ricos ficavam nas universidades. Obviamente, o sr. Kerry mudou muitas vezes de penteado nos últimos cinquenta anos.

João Carlos Espada