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Expresso

Jaime Nogueira Pinto

Tempestades sobre Washington

Washington é esta cidade racionalista, neoclássica, nas margens do Potomac, capital da República Imperial americana. É uma cidade que conheço bem há 30 anos.

Tem o Mall com as sedes e símbolos do poder – o Capitólio, a Casa Branca, os "executive buildings"; Georgetown, boémia, académica tipo "rive gauche"; e Dupont Circle, também boémio, ao lado da zona residencial de luxo, Embassy Row; e uma 'baixa' com os escritórios dos lóbis, dos "think-tanks", das Fundações, das revistas políticas. E os três clubes importantes: o Metropolitan, desta tão especial "gentry" americana que fascinou, acolheu, e liquidou o Jay Gatsby – Scott Fitzgerald; o Cosmos, dos políticos e dos académicos, onde fico sempre; o Army and Navy, dos militares. "Metropolitan is money; Cosmos, brains; no money no brains, Army and Navy". É uma graça antimilitarista de Washington.

Sobre esta, pairam um fantasma e uma incógnita: o fantasma é o Iraque; a incógnita, as presidenciais.

O fantasma, que assombrava o Executivo, passou também para o Congresso, desde que os democratas são a maioria. Na Administração, já toda a gente entendeu que os neoconservadores, neowilsonianos e ex-esquerdistas do 'democracia já e em toda a parte' arrastaram o país para outro Vietname. Os realistas tomaram agora conta do State Department e, com Robert Gates, do Pentágono. A política vai ser mais bipartidária e vai concentrar-se no "honorable way out", sem que os estragos sejam (muito) visíveis. As esperanças voltam-se para o general Petraeus um dos artífices da vitória militar de 2003, um peso-pesado. Ele e Gates, um "expert" na área da "intelligence", devem pôr de pé uma estratégia de contra-insurreição, inspirada na linha de Jacques Massu na Batalha de Argel. Mas que só funcionará se for suspenso o Estado de direito imposto pela correcção política – com juízes iraquianos, a julgarem terroristas (que absolvem sempre, é claro!). Assim, não há forças iraquianas, militares ou policiais para os combater.O outro tema são as presidenciais. Há dois candidatos 'fortes' republicanos – Rudi Giuliani e John McCain – que têm dificuldade por vidas e opiniões, com a base evangélica do partido, isto é, para a nomeação. E dois – Hillary Clinton e Barack Obama – nos democratas. Hillary tem dinheiro, fama e sabe manipular as convicções à mercê do interesse imediato. É detestada pelos evangélicos, para quem simboliza o pior. Obama tem simpatia, originalidade, uma mulher (muito) bonita e os "media" puxam por ele. Mas não tem dinheiro, numa nomeação que se vai decidir, com o calendário de primárias previsto, até Maio de 2008. O que quer dizer, ter pelo menos 100 milhões de dólares "cash", em Dezembro de 2007, para ser um candidato a sério.

Ora se a candidata democrática for Hillary, os evangélicos – que são religiosos, mas não são estúpidos – irão votar contra ela, seja quem for o seu opositor. Até Giuliani, casado pela terceira vez e com opiniões tolerantes sobre questões de moral e costumes. E, segundo as 'sondagens', Hillary perde contra Giuliani, e até contra McCain, desde que os evangélicos não fiquem em casa! Interessante.