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Expresso

Jaime Nogueira Pinto

Goodbye sopranos!

A imagem do "gangster" no cinema americano começa por ser ambígua, entre 'heróica' e 'maligna'; nos filmes de James Cagney, como 'The Public Enemy', filmes a preto e branco, anos 30, polícias de chapéu, carros negros, grandes calibres. Al Capone e a Depressão estavam presentes e a Lei Seca, ao criminalizar uma necessidade 'normal' das pessoas – beber álcool -, criara um mercado para o crime organizado. E o crime organizou-se. Empresarialmente.

As fitas clássicas condenaram o crime e as coisas só mudaram, com escândalo, em 'Bonnie and Clyde' (Arthur Penn, 1965); já porque os criminosos eram interpretados por 'artistas' bons, bonitos e famosos – Warren Beatty e Faye Dunaway – já porque o movimento, a cor, a música, estavam do lado deles.

Mas foram os 'Padrinhos' (I, II, III) que transformaram tudo, ao fazer de D. Vito Corleone – Marlon Brando – o grande senhor do crime. Com ética, com regras, um cavalheiro, quase um cavaleiro. O cavaleiro, o filho, Michael Corleone – Al Pacino. A sua entrada nas nossas vidas foi em 1973, data do filme de Coppola, que marca essa revolução dos "gangsters" passarem a senhores. Houve depois um tempo de bons filmes, eticamente ambíguos – 'The Cotton Club' (Coppola, 1984), 'Once Upon a Time in America' (S. Leone, 1984), 'Goodfellas' (M. Scorsese, 1990), 'Miller's Crossing' (Cohen, 1990), E depois a decadência, 'Casino' (Scorsese, 1995). Os 'chefões' perdem o estilo; acaba o romantismo e volta o massacre.

'Os Sopranos' apareceram no crepúsculo disto (1999) e chegaram agora ao fim, depois de seis séries e 86 episódios. São um epitáfio. De Manhattan passamos a New Jersey; das mansões dos Corleone, do "consigliere" – Robert Duval –, às vivendas suburbanas de Tony e de Paulie, com o seu clube de alterne. Tony, genialmente feito por James Gandolfini, é o bandido pme. Nada a ver com os Corleone, nem com outros chefes. É um pme que escolheu como ramo o crime; tem uma família, de mulheres que lhe resistem – a mulher, Carmela, a filha Meadow, a mãe, Lívia e a irmã, Janice. Que o temem, desprezam, odeiam e perseguem. O negócio não é grande coisa – extorsão a pequenos comerciantes, sovas e destruição de bens dos que não pagam. A 'ética' de Tony – a ética viril e brutal da máfia – cede perante os santuários familiares. Pior, vai à psiquiatra. A psiquiatra, a drª Melfi, uma italo-americana integrada, boa cidadã, "alumeuse" qb. Que o pica mas não lhe dá troco. Mas Meadow despreza-o, Carmela teme-o; a mãe manipula-o com o complexo de culpa; e a irmã, Janice, não o deixa em paz.

Tony Soprano, sozinho, vê na TV Gary Cooper e 'O Padrinho'. Como todos os deslocados, refugia-se no imaginário, no seu 'mundo encantado', nos heróis americanos, no seu "bunker". Faz o quadrado à Custer e diz a Meadow que ali em casa será sempre 1954! A América de Ike, da Guerra Fria, da segregação racial.

Um "gangster" 'reaças', tradicional, dos velhos tempos, que obcecou a América durante sete anos. Acabou em Junho. Que descanse.