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Expresso

Inês Pedrosa

Ségolène e as outras

"Cem mulheres julgam Ségolène", era o título de capa da revista francesa "Le Nouvel Observateur", há duas semanas. Fiquei à espera da capa da edição seguinte, que deveria, logicamente, anunciar o julgamento de Sarkozy por cem homens. Aprendi que o trabalho jornalístico consiste na investigação aprofundada dos aparentes factos - e nunca por nunca ser em julgamentos, populares ou elitistas, menos ainda artificialmente criados pelo meio de comunicação em causa. Mas essas regras que aprendi no século passado têm vindo a estoirar - dizem-me que por imperiosas necessidades de sobrevivência. A tabloidização incessante de jornais e revistas cheira-me ao triste esturro dos bombistas suicidas: pode ser que cheguem ao céu, mas o que se vê cá na Terra é um strogonoff de carne humana, lagos de sangue e destruição. Um dia a imprensa entenderá que a automutilação e a tentativa de clonagem do pior da televisão leva à morte - espero que ainda consiga entendê-lo antes que acabem todos os jornais e revistas. Esperei, assim, com a paciência relativamente optimista que me foi incutida na infância do jornalismo, que a graça de mau gosto tecida em volta da candidata à Presidência da França tivesse um contraponto em relação ao seu principal rival.

Duas semanas volvidas, concluí que não: a capa do "Nouvel Obs" sobre Ségolène era, de facto, um ataque singular dirigido à primeira francesa que ousou sentir-se capaz de presidir aos destinos do seu país. Espantosamente, nenhuma das cem figuras femininas que foram chamadas a este "julgamento" o recusou, nenhuma delas exigiu, pelo menos, julgar também Sarkozy. Catherine Millet decreta: "Este país não precisa de uma 'mamã' para lhe dar lições de moral. Prefiro a hipocrisia burguesa." É natural que prefira - sem essa maravilhosa hipocrisia Madame Millet não teria vendido milhares de exemplares do livro em que conta as suas relações sexuais em série. Mas não deixa de ser deprimente ver uma mulher supostamente livre atacar outra através do mais patriarcal e castrador dos argumentos - o da maternidade. Pois que outra coisa repetem os conservadores, senão que o lugar das mulheres que procriam é o doce lar? Em 1992, então ministra do Ambiente e grávida de oito meses, Ségolène Royal foi à Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro, onde falou do direito ao aborto (ainda hoje por conquistar, no Brasil). E nunca tirou uma licença de maternidade. Mas factos como estes não impedem a escritora Alina Reyes de considerar Sègolène retrógrada, declarando que "com ela, é o "regressus in utero". Com mulheres destas, o machismo não se arrisca a morrer. Mesmo entre as que tentam defendê-la, encontramos críticas à sua maneira de vestir, aos seus biquinis, ou à sua "psicologia". Uma astrónoma cogita: "Se ela não consegue entender-se com o seu partido nem mesmo com o seu companheiro, pergunto-me com quem poderá ela entender-se!" E Françoise Hardy diz que a preferiria "menos atractiva e mais coerente". A maternidade, a psicologia, a beleza - faltará nesta lista de julgadoras algum lugar-comum do paternalismo sexista?

Na penúltima edição da mesma revista, o cronista Jacques Julliard põe o dedo na ferida, apontando "a misoginia de certas feministas" - além do cortejo de queridos camaradas frustrados e ofendidos, essa banalidade funesta da política partidária: os ressentimentozinhos dos invejosos, as "gaffes" prontamente ampliadas. Ora vejam a gaja - quem é que ela se julga? Sarkozy promete aumentar a despesa pública e diminuir os impostos, diz-se que ele é sério. Ségolène promete aumentar o salário mínimo, criar uma linha de crédito para jovens, subir as pensões e penalizar as empresas que não reinvistam os seus lucros - e é uma perdulária doida. Sarkozy faz uma citação errada e os comentadores assobiam para o lado. Ségolène engana-se numa palavra, e tem-se anedota para um mês inteiro. Não é preciso escavar muito para perceber que a esquerda tradicional não perdoa a Ségolène a mistura heterodoxa entre medidas sociais de esquerda e disciplina de direita. Mas só quem não quiser ver o desastre sociológico em que redundou a política de estufas multiculturalistas criada pela má-consciência de uma certa esquerda - aquela que põe os filhos em chiquérrimos colégios-redoma e empurra os imigrantes para os guetos da sua pretensa especificidade cultural - é que pode, de boa fé, chamar demagógica a Ségolène. Chegámos a uma tal nebulosa ética que qualquer discurso que invoque a realidade social concreta é considerado demagógico - aqui, como em França. A França da liberdade está ainda muito próxima do nosso Portugalinho soalheiro e salazarento, quando se trata de considerar as mulheres simplesmente como pessoas - com o mesmo direito a serem bonitas ou feias, bem ou mal vestidas, eloquentes ou frustes, demagógicas ou lúcidas, que desde sempre assistiu aos homens. Um dia teremos uma professora Marcela ou uma Antónia Vitorino. E uma Presidente da República, tão capaz de apelar aos "consensos alargados" (o que será um "consenso estreito"?) como qualquer outro. E aí seremos uma democracia.

Inês Pedrosa

jornalista