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Expresso

Inês Pedrosa

Quando Deus quis ser pai biológico

Jesus foi criado por um pai adoptivo.

Naquele dia, Deus acordou mal disposto. Até aqui, nada de novo. É uma coisa que acontece muito a Deus. Sobretudo na época de Natal - o trânsito, a poluição, o consumo, a brutalidade das pessoas apressadas, enfim; uma confusão extrema de motivos muito pouco divinos. "Fiz muita asneira na construção do ser humano", resmungava o Senhor, de nuvem em nuvem. "Muita asneira, mesmo. E o livre-arbítrio também não foi, confesso, uma ideia genial. Esta gente não sabe escolher. As excepções não me consolam. Ninguém me consola, aliás." Para aliviar este improdutivo acesso de autopiedade, Deus pôs-se à escuta. Os problemas concretos das pessoas distraíam-no da sua infinita solidão. Mas desta vez, por azar, falavam dele. Ou quase. Duas amigas conversavam sobre a paternidade, e uma delas disse: "Ser pai biológico não chega. Olha, Jesus teve um pai adoptivo, ou um padrasto, um simples carpinteiro, e não se deu nada mal." Retorquiu a outra: "Sim, deu-se mal foi com o outro, o biológico, que o mandou morrer numa cruz - e para quê? Nem por isso os Homens melhoraram." A primeira mulher recordou que por alguma razão o Dia do Pai era o dia de São José, o tal carpinteiro humilde que aceitou criar um filho alheio: "Está bem que era o filho de Deus, mas isso, supostamente, somos todos. E José tomou por boas as palavras de Maria, aceitando como seu um filho que não era do seu sangue. É ele quem está no presépio, foi ele quem providenciou para que o menino Jesus pudesse fazer-se homem, dando-lhe alimento, educação, carinho. Sem o São José, o que teria acontecido àquela criança?" As duas amigas imaginaram todas as possibilidades, que eram poucas, e terríveis: ou Maria teria sido apedrejada até à morte, como prostituta de mau exemplo, ou o cruel Herodes teria mandado degolar o fruto do seu ventre, como fez com centenas de outros inocentes, por causa da profecia do tal novo rei, enviado pelos céus.

"Fui eu quem criou esse José que vocês tanto amam, mulheres de pouca fé!", trovejou Deus, agora, mais do que mal disposto, irritado pelos ciúmes. Por um segundo, Deus considerou que não só criara uma Humanidade cheia de defeitos, como ele próprio estava a ser contaminado por algumas dessas imperfeições. A solidão custa a todos, afinal. E a consciência crítica, só por si, não sossega ninguém, nem o próprio Deus. Por mais que trovejasse, a raiva não desaparecia. Nem o diabo do ciúme. "É no que dá, ser-se demasiado bom. Quem é esse José, afinal? Que fez ele na vida? Mudou umas fraldas, ajeitou umas palhas, cantarolou umas canções de embalar, meteu a papa na boca do meu filho. E acabou por ficar o grande herói da paternidade. Isto não pode ser. Dia do Pai, dizem elas. Mais um pretexto para festas e consumos, isso sim. Eu já lhes digo quem é que é Pai."

Em vez de exprimir a sua ira através de um maremoto, um tufão ou coisa do género - desde há muito que a Natureza entrara em autogestão, insuflada pelo livre-arbítrio humano, e fazia essas coisas sozinha -, decidiu ser um homenzinho e fazer aquilo que fazem os homenzinhos: queixar-se. Uma acção intensa e presente, omitindo as escolhas do passado e os escolhos do futuro. Assim, desceu à Terra para assumir o seu filho. "Mais vale tarde do que nunca", pensou. Desse modo absoluto pensava o homem com cara de anjo que Deus encontrou à porta do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, também para reclamar um filho - ou antes, uma filha. Vinha carregado de papéis de tribunais anteriores, que reconheciam como sua pertença uma menina, nascida dos seus espermatozóides. "Você também é português?", perguntou o homem de aparência angélica. "Tem dias", respondeu Deus. "Acha normal que não me dêem a filha que me pertence, e que os tribunais já mandaram que me fosse dada?" Nesta sua nova formulação humana, Deus teve um arrepio na espinha, e ouviu-se a perguntar: "Não sei. Qual é a vontade da sua filha?"

A cara de anjo do homem encarquilhou-se de fúria, e transfigurou-se: "Vontade? Como é que uma criança de seis anos pode ter vontade? Eles viraram-na contra mim!" Eles, veio Deus a saber, eram o homem e a mulher que tinham tomado a menina nos braços, quando era bebé e o pai biológico não a queria, e a tinham criado como filha. Mas isso, segundo o homem, não interessava nada. A Deus, pelo contrário, agora que se humanizara, parecia-lhe que a sequência temporal - aquilo a que as pessoas chamam história - tinha toda a importância: o depois era sempre uma consequência de um antes. Porque se antes não tivesse havido ninguém para cuidar daquela criança, não poderia haver, depois, quem a reclamasse como sua filha. Isto parecia-lhe de uma evidência esplendorosa. Assim, quando o funcionário do Tribunal o conduziu ao juiz para que expusesse a sua queixa, Deus tinha acabado de descobrir, no interior do seu coração de homem, uma imensa gratidão para com esse São José que dera ao seu filho dilecto a liberdade de se tornar o homem exemplar que foi. E retirou a queixa.