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Expresso

Inês Pedrosa

Portugal

Em tempos já muito idos, ainda no século passado, dirigia eu uma revista por sinal multinacional e de nome francês, decidi, autocraticamente, criar uma norma interna que proibia que se usasse qualquer língua estrangeira nos títulos dos artigos. Houve um bocadinho de choro e ranger de dentes: algumas jornalistas garantiam-me que o inglês tinha mais graça e era um sinal de sofisticação (aliás, a palavra que usavam era a portuguesíssima "glamour"). Retorqui que assim que a edição inglesa da revista prestasse preito tituleiro à língua de Camões, nós faríamos o mesmo - até lá, honrosamente portuguesinhas nos manteríamos. Dezenas de excepções me foram depois propostas - "só desta vez, isto não pode ser dito de outra maneira" - mas a minha vetusta pessoa, acabada de criar na gloriosa década de oitenta em que o rock nacional conseguia ser simultaneamente inspirado e cantado em língua portuguesa e as estações de rádio tratavam a música portuguesa tão bem como se fosse estrangeira, manteve-se inamovível. E a verdade é que nunca deixámos de encontrar títulos portugueses para todos os temas da revista. Havia, nesse fim de século, a ideia de que salvaguardando a língua estávamos a promover a cultura e a imagem de um país que se notabilizara, acima de tudo, pelo fulgor da sua criatividade literária. Percebi que esta ideia era um bocadinho ingénua, para não dizer mesmo desfasada do real quando, perto do virar do milénio, ouvi um director de jornal gabando-se de ter contratado, por uns larguíssimos milhares de contos de réis, um par de especialistas norte-americanas que estavam a "estudar a calçada de Lisboa e as cores da cidade" para que depois, com base nesse estudo, se realizasse uma moderníssima revolução gráfica no jornal. Senti desmaiar dentro de mim a defesa da língua nacional, substituída por uma vontade súbita de me tornar uma especialista norte-americana em calçada portuguesa.

A campanha de promoção do Allgarve, agora lançada pelo nosso sempre imaginativo e intrépido ministro Manuel Pinho, acelerou decisivamente a minha adesão ao choque tecnológico e ao ecuménico espírito desta década zero. Sou um bocadinho lenta; de outra maneira poderia já ter entendido a mensagem quando o nosso ministro da Economia publicitou na China a barateza da mão de obra lusitana - e ainda na semana passada tivemos notícia de como essa mão de obra de saldo é eficientemente vendida, por intermediários portugueses, para território espanhol, conseguindo o pluricultural prodígio de diminuir o desemprego em Portugal e aumentar a rentabilidade espanhola. A comunicação social, sempre cheia de maldade e obscuros intuitos de destruição (como muito bem vai sublinhando o blogue oportunamente criado pelo Ministério da Administração Interna), pôs-se logo a chamar "escravatura" a essa modalidade de contratos de trabalho, tão contemporânea no seu despojado minimalismo.

Ficarmo-nos pelo Allgarve é pouco - é Portugal inteiro que temos de afeiçoar ao esperançoso esperanto do inglês. Porque no Allgarve, mesmo quando era só Algarve, já os ingleses se sentiam tão à vontade que até nas caixas de supermercado era possível encontrarmos súbditas da Rainha Isabel II perguntando, aflitas com as contas em português: "Do you speak english?" Proponho que Portugal passe a chamar-se Portugoal - anunciando assim, de uma forma sintética, o facto de sermos um país de objectivos e um país de futebol. Os múltiplos estádios de futebol que o pós-Euro transformou em pastos abandonados poderiam ser alugados à época a equipas europeias, revitalizando a hotelaria de norte a sul do País. Lisboa, que é uma confusão babélica para o turismo - Lisbon, Lissabon, Lisbonne, etc. - passaria a chamar-se uniformemente Lisgood ou Lisgod, consoante se pretendesse enfatizar a boa qualidade de vida material (sol, gastronomia, vinho, panoramas típicos) ou espiritual (simpatia dos nativos, fado, igrejas, vinho, panoramas típicos, doçaria conventual). O Porto fixar-se-ia como Portwine, Coimbra como Little Cambridge, evocando simultaneamente o perfil académico da cidade e o histórico Portugal dos Pequenitos. Aljubarrota chamar-se-ia Allspanishdied, Alcobaça poderia chamar-se Allcommunion, invocando assim em simultâneo a dilacerante paixão de Pedro e Inês e o sonho comunitário português, das Descobertas à União Europeia. Guimarães ficaria Gutstown, homenageando a bravura do nosso primeiro rei e terceiro grande português, Bragança chamar-se-ia Mother's Dance, recordando o internacionalmente famoso Movimento das Mães de Bragança, e Faro denominar-se-ia Farwell, aglutinando as sensações de bem-estar e de despedida. Não esqueçamos que Portugoal é um território de sensações mistas, místicas, quiçá até melancólicas. E a melancolia vende. Não vou agora entrar em mais pormenores sobre este amplo projecto de reformulação turística da nação - mas posso fazê-lo por metade do preço de um par de especialistas norte-americanas em cromatismo lisboeta. Adianto apenas que a bela ilha da Madeira poderia, vantajosamente, dar pelo nome de Woodstock, com pica-pau amarelo incluído.

Inês Pedrosa