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Expresso

Inês Pedrosa

Os filósofos e as mulheres

A CAPA DA REVISTA francesa "Le Nouvel Observateur" de 16 de Agosto mostrava uma mulher em tronco nu – uma mulher jovem, sensual, com os braços erguidos, tocando no cabelo, com uma rosa numa das mãos. Tratava-se de uma fotografia a preto e branco, com ar de ter sido extraída de uma colecção de imagens eróticas dos anos 20 do século passado. Sobre esta jovem – abaixo dos seios, evidentemente – o título: "Les Philosophes et les Femmes".

Uma capa de revista dedicada ao tema "Os filósofos e os homens" seria impensável. Em primeiro lugar porque, para que a expressão "os homens" se cinja ao sexo masculino é necessário que "as mulheres" sejam mencionadas na mesma frase. Quando não, "os homens" representam, em absoluto e por grosso, a humanidade. Em segundo lugar, "os filósofos" são uma parte de "os homens", pelo que a afirmação seria considerada, se não ridícula, pelo menos redundante. E ainda que, num momento de loucura, desespero ou de inspiração absoluta (o Verão é difícil para a comunicação social, com o habitual circo da política fechado para férias), um editor decidisse fazer um dossiê sobre aquilo que os homens-filósofos disseram dos outros homens... certamente não lhe ocorreria pôr na capa um jovem nu, de braços erguidos e olhos em alvo. Mesmo que fosse a preto e branco – quando se pretende conferir seriedade a um chamariz sexual, usa-se o preto e branco; um par de mamocas "retro", num "dégradé" de cinza, é coisa culta, que nenhum intelectual de esquerda terá vergonha de exibir debaixo do braço. Porque o "Nouvel Obs." é, como se sabe, uma revista de esquerda. E a esquerda, como se sabe, detesta o machismo e a misoginia – quando se lhes refere, em particular em França, é só para os "desconstruir". Já Ségolène Royal fora, em plena campanha eleitoral, devidamente "desconstruída" por uma capa do "Nouvel Obs." em que se anunciava: "Cem mulheres julgam Ségolène." Nunca dedicaram atenção semelhante a Sarkozy, que pôde chegar à Presidência da República francesa sem passar pelo julgamento popular de cem homens. Curiosamente, Ségolène surge logo no segundo parágrafo do texto introdutório do douto dossiê. Escrevem as articulistas (Aude Lancelin e Marie Lemonnier, duas mulheres, por conseguinte seres pouco filosóficos) que o francês contemporâneo se encontra "abatido pelas reivindicações paritárias e pelo sorriso ainda insistente de Ségolène Royal". Ah, o sorriso, essa característica tão feminina... A meio da revista (já fora da secção filosófica propriamente dita) encontramos um artigo sobre a mulher de Sarkozy, intitulado "Cécilia, a Imprevisível" – sequela de "O Enigma Cécilia" que fazia a capa de uma edição anterior da revista. E que nos revela este texto (de Hervé Algalarrondo, homem, e portanto tendencialmente reflexivo)? Revela-nos que, ao justificar por doença a sua ausência num piquenique com a família Bush, Cécilia confirmou a sua "reputação de mulher imprevisível". Ah, a reputação, esse mistério da feminilidade...

Quanto ao dossiê filosófico propriamente dito, pouco mais é do que uma salada de citações ressentidas, mais velhas do que as comemorações da morte de Elvis Presley, de "A mulher é um macho abortado" (Aristóteles) ao famoso "Se fores ver a mulher, leva o chicote" (Nietzsche) ou à freudiana interrogação: "Afinal, o que é que elas querem?". Imagino os fantasmas destes martirizados cavalheiros erguendo-se em uníssono numa manifestação (paritariamente liderada pelo esplendoroso e sempre rentável fantasma da princesa Diana) com um cartaz gigantesco onde se leria: "Desculpem qualquer coisinha e deixem-nos descansar em paz!"

Hannah Arendt é a única filósofa considerada – e mesmo essa, sobretudo pela negativa: cita-se uma carta dela para Karl Jaspers em que se queixa do seu ex-professor e amante Heiddegger, que "não suportou que o meu nome aparecesse em público, nem que eu publique livros" e que só a aguentou enquanto ela "fez de conta que só sabia contar até três". Françoise Collin sublinha, aliás, que Arendt preferia dizer-se "politóloga" do que "filósofa" – para não excitar a inveja dos seus contemporâneos? Simone de Beauvoir reduz-se à enunciação feminista – e Maria Zambrano ou Simone Weil continuam a não existir. Seria interessante analisar porque é que, no século XXI, se prefere repetir citações discriminatórias de séculos passados, em vez de reflectir sobre as causas do persistente apagamento das mulheres filósofas – dado que, como afirma Frédéric Pagès (autor do estimulante "Philosopher ou l'Art de Clouer le Bec aux Femmes" (Filosofar ou a Arte de Calar o Bico às Mulheres), edição Mille et Une Nuits): "A filosofia é uma forma de reprodução entre homens, evitando a matriz feminina, por fascinação mútua, de geração em geração. Falta inventar uma filosofia que não corte a palavra a ninguém, que convide finalmente as mulheres para o banquete – que será então muito mais rico do que este 'buffet' seco e frio que propõe o clube de fumadores de charutos da Sorbonne." Falta, sobretudo, ler o que elas escreveram e escrevem – a sós, e sem "buffet".

Inês Pedrosa