Siga-nos

Perfil

Expresso

Inês Pedrosa

O sistema da honra

Nas coisas grandes, os países tendem a tornar-se cada vez mais parecidos uns com os outros — os sistemas políticos, económicos e judiciais fazem-se clonados, com maior ou menor grau de corrupção e descaramento. As castas dirigentes de Angola ou da Rússia, por exemplo, declaram-se hoje democráticas, o que significa que o conceito de Democracia se globalizou de tal maneira que talvez tenha de ser redefinido a partir de pormenores básicos, como o pluralismo partidário, a limitação dos cargos, a fiscalização das fortunas dos políticos e a protecção da liberdade de expressão das pessoas. O problema é que cada um destes pormenores tem vindo a ser transformado numa coisa grande em si mesmo, cada vez mais inchada e vazia. Em Portugal, supostamente, vigora a liberdade de expressão — no entanto, o jornal "Público" acaba de ser condenado a uma indemnização pesadíssima por ter publicado uma notícia verdadeira sobre um grande clube de futebol português.

Nas coisas pequenas encontramos as diferenças culturais que, às vezes, nos levam a manter alguma esperança na espécie humana. Duzentos quilómetros a norte de Nova Iorque, no vale do rio Hudson, existe uma residência de escritores, a Ledig House, que convida escritores do mundo inteiro para estadias de um ou dois meses, de modo a que possam desenvolver, em absoluta concentração e tranquilidade, os seus projectos. O silêncio é a lei, à excepção da hora do jantar, a única refeição comum e servida à mesa. Ao longo do dia ou da noite, cada um vai à cozinha e trata de si. A cozinha fica na casa principal; depois há outras duas, só com quartos — mas as portas das casas estão sempre abertas, no trinco, a qualquer hora do dia ou da noite.

Não há guardas, nem portões, nada. Quem quiser telefonar dispõe de cartões telefónicos numa gaveta aberta: tira o cartão e põe os cinco dólares correspondentes. Este sistema de confiança, o chamado "honor system", vigora em toda a vida laboral nos Estados Unidos e funciona, aparentemente, sem défices. Quando se passeia pelos campos circundantes, estranha-se a total ausência de vedações em torno das propriedades; o limite de cada terreno assinala-se apenas pela diferença do corte ou da tonalidade da relva. De quando em quando, surge uma tabuleta lembrando que aquele terreno é propriedade privada — mas a olhos portugueses resulta estranho que, sem vedações, as flores e a relva não apareçam pisadas, e as árvores de fruto não apareçam esburgadas.

Neste beatífico sossego, qualquer movimento pode parecer suspeito: o escritor alemão Christian Schüle teve a experiência concreta desta suspeita. Passeava sozinho por uma estradita campestre às dez da noite quando surgiu um carro da Polícia com as luzes em alerta, lançando-lhe um foco ao rosto. A primeira coisa que lhe ocorreu dizer, e não terá sido a mais eficaz, foi que era apenas "um bom alemão". Como levara a mão ao bolso para guardar o iPod, o polícia intimou-o a que mantivesse a mão no bolso e explicasse o que tinha nele. Não tendo o passaporte consigo, Christian foi acompanhado ao quarto para se identificar. Já no carro da Polícia, o alemão foi informado de que é necessário desconfiar dos estrangeiros, porque, embora noventa e nove por cento das pessoas sejam boas, sobra sempre o fatal um por cento. Para fazer conversa, Christian lembrou-se de lamentar a guerra do Iraque, tendo-lhe o agente explicado simpaticamente que é preciso ir combater o inimigo na terra dele para evitar que ele venha à nossa. Depois da visita ao quarto do escritor, o agente despediu-se, desejando-lhe uma boa noite.

Informado do incidente, o director da Ledig House, D.W. Gibson, dirigiu-se à esquadra de Hudson para se dar a conhecer às autoridades e averiguar se havia na zona alguma norma de recolher obrigatório. Por trás de um vidro espelhado, uma voz respondeu-lhe que só existia ordem de recolher na noite de Halloween. D.W. sugeriu à voz policial que erguesse o vidro para que pudessem falar face a face, tendo-lhe a voz retorquido que não era necessário e que o incidente tinha sido originado por telefonemas de habitantes da área, assustados com a luz da lanterna que o escritor alemão estaria a apontar às suas casas.

Como Christian negasse a existência da lanterna, o director telefonou para a esquadra pedindo que o agente que abordara o escritor o contactasse — e o agente telefonou, esclarecendo que fora precisamente a ausência da lanterna o que assustara as pessoas que, atrás das suas janelas, haviam detectado o passeante. Nesta área, há uma distância de meio quilómetro, no mínimo, entre cada casa — só as renas podem servir de pasto aos assassinos por grosso, candidatos à torpe glória póstuma que o sistema mediático sempre lhes concede. É verdade que a venda de armas funciona no país tão bem e tão livremente como o sistema da honra. Mas não há uma só América: nesta onde estou, atravessa-se o pátio às duas da madrugada e as portas estão sempre abertas, de uma casa a outra, debaixo de um manto de estrelas que ofusca o próprio céu.

Inês Pedrosa