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Expresso

Inês Pedrosa

Lição de subserviência

CADA VEZ MAIS, lealdade institucional é sinónimo de sabujice. Contrato de trabalho é sinónimo de aceitação incondicional das ordens do chefe. Prémios e promoções são para quem desligar os neurónios críticos. Opiniões divergentes são roupões de trazer por casa, que, como aliás já explicou aos jornais uma dirigentezinha zelosa, jamais devem exceder a soleira da porta. Parece ser este o dicionário do Poder em vigor em Portugal, em 2007.

O despedimento da directora do Museu Nacional de Arte Antiga é a demonstração acabada deste estado de coisas. Em 2003, antes da nomeação da historiadora Dalila Rodrigues, o museu recebera 71.973 visitantes. Em 2006 atraiu mais do que o dobro – 192.417 pessoas. Neste mesmo período, as receitas geradas pelo museu passaram de 250 mil euros para um milhão e 109 mil euros. No entanto, estas receitas não lhe pertencem; o Ministério da Cultura pode utilizá-las como entender – por exemplo, para tapar os buracos de museus sem projectos ou trabalho digno de nota. Dalila Rodrigues defendia a autonomia do museu e a sua dependência directa do Ministério da Cultura – o que, tratando-se do único museu cujo director é directamente nomeado pela tutela, faz todo o sentido. Mesmo que a ministra da Cultura não concorde com esta visão (o director do Instituto dos Museus e da Conservação dificilmente concordaria com ela, porque isso lhe retiraria poder), seria de esperar que apreciasse, pelo menos, o que ela significa de empenhamento concreto, vontade de melhorar e de responder pelo seu trabalho. É destas aptidões que se faz a lealdade – muito mais exigente e compensadora do que a cega, surda, muda, acrítica e acomodada fidelidade aos chefes. O abaixo-assinado em que 16 directores de museus se apressaram em demarcar-se das posições de Dalila Rodrigues parece saído de um filme cómico, género "Adeus, Lenine". Mas quando acabamos de rir e verificamos que estes espectáculos de subserviência activa decorrem efectivamente em Portugal, no início do século XXI, só nos resta chorar. Ou emigrar.

Até o Presidente da República começa, finalmente, a sair do seu estóico mutismo. As palavras de Cavaco Silva quanto a esta demissão foram simples e eloquentes: "Costuma dizer-se que a nossa administração pública tem falta de quadros qualificados. Podemos dar-nos ao luxo de prescindir daqueles que revelaram já as suas altas qualificações e que deram provas no desempenho das suas responsabilidades?" Não, não podemos dar-nos a esse luxo – até porque estes profissionais altamente qualificados elevam normalmente as qualidades daqueles que com eles trabalham. Em entrevista ao "Expresso" da passada semana, o ex-director-geral dos Impostos, Paulo Moita de Macedo, referia ter ficado surpreendido com "a quantidade de pessoas de qualidade e com vontade de fazer melhor, num contexto difícil de redução de regalias e com uma média etária elevada". Há semanas, Francisco José Viegas explicava ao "Correio da Manhã" como conseguira abrir a Casa Fernando Pessoa pela noite dentro, com o apoio e o entusiasmo dos funcionários – mesmo sem poder pagar-lhes horas extraordinárias. O que significa que os funcionários públicos não são tão maus como os pintam – falta-lhes é estímulo e responsabilidade.

É revoltante perceber que uma pessoa cuja actuação profissional atingiu o nível da excelência pode ser posta de lado por ter expressado um parecer diferente do instituído pela tutela sobre a gestão e optimização do seu trabalho. "É inacreditável não se poder formular um pensamento. Fiz pelo museu o melhor que pude e tudo o que sei", conclui Dalila Rodrigues ("Público", 2.8.2007). É triste que o mais internacional museu do País perca a alma, assim – ou assado: a peregrina ideia da "entourage" do primeiro-ministro (segundo o "Diário de Notícias", 4.8.2007) de que esta demissão deveria ter esperado pelos próximos concursos públicos para se diluir neles, poderia considerar-se perversa se não fosse simplesmente patética. Não é verdade que ninguém seja insubstituível – os excelentes serão sempre minoritários, e demoram a formar. Mas, em última análise, a vida continua – com maior ou menor brilho. A saída de Dalila Rodrigues preocupa-me, não pelo seu futuro – quem tem um sólido percurso profissional construído por mérito próprio e à margem da politiquice, como é o caso, encontra sempre um campo para a sua acção -, mas pelo futuro deste precioso museu.

O pior é que os exemplos são contagiosos – e esse contágio prolonga-se no tempo. A lição fornecida aos jovens estudantes através desta demissão é brutal: se quiserdes um lugar ao sol neste Portugal dos pequenitos, preocupai-vos sobretudo em não fazer ondas, que o altivo mar dos Descobridores é agora um lago de lambe-botas. Dedicação, criatividade, eficiência, estudo e empenhamento são demónios de perdição dos quais deveis fugir enquanto podeis – acirram invejas e despertam a vontade de poder que dorme no coração dos que não dispõem de mais nada. Zarpai, jovens, zarpai enquanto é tempo para os países que amam esses talentos.

Inês Pedrosa