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Expresso

Inês Pedrosa

Lembrar Baudrillard

"SOU um profissional do desaparecimento" - a frase de Jean Baudrillard que servira de título à entrevista que lhe fiz, em Fevereiro de 1988, para o "JL", acudiu-me imediatamente à memória quando soube da sua morte. Ora, a memória já não é o meu forte. Ninguém pode viver para o jornalismo durante quinze anos a fio, como eu vivi, e ter a pretensão de ter memória. Às vezes perguntam-me de que entrevistado gostei mais, e abre-se-me um abismo formado por um rosto único, desmesuradamente anónimo. Não é diplomacia nem maldade, apenas negro olvido, olé, irreversível, trágico, como o dos folhetins espanhóis que eu escondia debaixo do colchão naquela idade incauta, pré-baudrillardiana, em que não pensamos que os olhos das mães chegam depressa, nas pontas dos dedos em que vêm aconchegar-nos, à parte de baixo dos colchões. De mães percebia Barthes mais do que Baudrillard, mas a ambos devo muito desse derradeiro aconchego maternal que é o desembrulhar das asas. Ensinaram-me a voar - quero lá saber que estejam datados e que as teorias deles já não se adeqúem ao século XXI, e o diabo a sete. O que neles me fascinava era a liberdade intratável, que fazia com que, quer um quer outro, fossem Escritores: gente cuja voz perturba a bélica placidez do mundo. Quando morrem, chamam-lhes cépticos - maneira de dizer que, afinal, não eram tão limitados como isso, apesar do cheiro a mofo do estruturalismo. O cepticismo tornou-se elogio, e ninguém parece interessado em reparar que é por isso que os fundamentalismos vicejam; chega um dia, uma hora, um local do mundo em que o desespero é tanto que as pessoas se encolhem para furar o chumbo do céu. Baudrillard escreveu algures que é preciso desfolhar o céu, virá-lo do avesso - e isto não é certamente a frase de um céptico. O que havia, o que continua a haver, naquela voz, é a lucidez militante de um homem curioso, alguém que viveu sempre intensamente empenhado em desbravar fundamentos - e por isso me lembro tão bem dele, dos seus olhos claros, da sua vivacidade, do nervosismo dos seus cigarros contínuos, da alegria mordaz dos seus comentários, por mais derrotistas que parecessem à primeira vista. Encontrei-o num Colóquio Internacional Moderno/Pós-Moderno, desancando nesse "pensamento fraco", então quase único, a que se chamava pós-modernidade. Eu amava de facto a inteligência e a beleza dos textos em que, já nessa época - na realidade, muito antes dessa época - Jean Baudrillard anunciava a sociedade virtual em que nos movemos hoje. Quando outros repetiam que o pessoal é político, ele desvendava a política como uma entre as múltiplas modalidades rituais de um sistema mediático de capitalismo que tendia à homogeneização dos conteúdos numa irrealidade progressiva - e progressivamente anestesiante. Escreveu incessantemente contra essa anestesia, arriscando pensar e dizer o que ninguém tinha dito. Sempre que o seu próprio pensamento caminhava para uma qualquer organização sistemática ou automática, ele disparava o alerta laranja e começava a pensar de novo. Assim, disse coisas politicamente incorrectas - e de enorme justeza - sobre "o complot da arte" contemporânea ("complot" sobre o qual publicou uma brochura, ressuscitando o bravo gesto da intervenção clara do intelectual sobre o seu tempo), sobre a guerra do Golfo, sobre o 11 de Setembro, sobre a tele-realidade big-brotheriana ou sobre a má-consciência multiculturalista que levou à guerra de civilizações nos subúrbios de Paris. Tinha por hábito ampliar aqueles acontecimentos "que não acendiam mais do que uma ligeira fosforescência sobre os écrans" para os ver ao pormenor - correndo o risco da distorção que a própria ampliação comporta. Desviando-se das matérias nobres da filosofia e do estreitamento ideológico-burocrático das sociologias, manteve-se inclassificável até ao fim. Nessa tarde de 1988 disse-me, entre muitas outras coisas igualmente sísmicas: "Para mim, as ciências humanas só tiveram uma virtude: acabar com a Filosofia. Fizeram estoirar a Filosofia, e isso foi uma coisa boa." Porquê? "Porque a Filosofia era também uma espécie de monopólio: havia uma profissionalização da Filosofia, uma boa consciência da Filosofia, uma pretensão... Uma espécie de vaidade. E depois, era preciso estilhaçar os problemas fundamentais da metafísica. (...) Poderemos hoje dizer, sem rir, 'eu sou um intelectual?' Não, claro que não! Há, apesar de tudo, uma ironia: mesmo que tenhamos perdido tudo, guardamos pelo menos esse recurso irónico de nos desfazermos da posição. A posição do Saber, a posição do Poder, tornaram-se inapreensíveis, indecifráveis..."

Hoje, pensadores como Barthes ou Baudrillard são, mais do que zurzidos pelos Novos Cépticos, esquecidos como tralha teórica de uma cultura em derrapagem. Hoje, para corrermos atrás de um romance em francês, é preciso que seja escrito por um americano, e jovem - como o badalado Littell das mil páginas de humanismo nazi. Não há ninguém que traduza o portentoso Longtemps, de Eric Orsenna; a civilização publicitária em que vivemos tornou-se, como no livro de Baudrillard, O Crime Perfeito.

Inês Pedrosa