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Expresso

Inês Pedrosa

Haquira já não está aqui

ESCREVO o título desta crónica para que o meu amigo Haquira regresse.

Ele era um homem do sim, os nãos que tivesse de pronunciar transformá-los-ia em caminhos de outros sins. Quando escrevo que Haquira não está aqui, ele reaparece - alto, aparentemente sereno, com aquele sorriso de meia lua próprio do japonês que era e não era, porque Haquira era tudo ao mesmo tempo, de uma forma concentrada. Aliás, ele ainda não saiu daqui, não sairá jamais. No passado dia 13, apenas deixei de poder falar com ele ao telefone e por "email". Terei que encontrar formas de contacto mais subtis - é esse o aperfeiçoamento extra que ele me pede, a mim que não sou exactamente a rainha da subtileza. Nem pouco mais ou menos.

Na verdade, o Haquira não nos pedia nada, a não ser que aceitássemos cumprir até ao fim aquilo que éramos. E eu, segundo o seu I Ching, pertencia ao bando dos arruaceiros, que levantam o vento e as folhas - um bando a que uma parte de Haquira também pertencia, enquanto a outra contemplava as folhas tocadas pelo vento. Mas ele entenderá que eu me revolte contra a sua morte, contra a tranquilidade com que a omitiu enquanto se despedia, calma e singularmente, de cada um daqueles que amou e que o amaram. Sei que tenho de honrar Haquira sendo o melhor de mim; ele foi sempre, com um perfeccionismo simples, o melhor de si. Mas nestes dias lentos e longos em que o sol nasce sobre um mundo em que Haquira já não existe, não sei ser nada - habituo-me à humildade desse nada de que sou feita. Não consigo concentrar-me nem abstrair-me, trago as emoções convulsas, demasiado fortes e demasiado fracas.

Não é só tristeza e dor o que a morte do amigo nos oferece, de imediato. É também o confronto com a nossa iminente mortalidade, o sentimento de que amanhã poderemos, também nós, não estar aqui. A urgência de nos entregarmos à vida que trazemos adiada, de dizer tudo de uma vez. E a consciência de que não temos palavras para dizer nada desse tudo. Começo a escrever e desisto. Distraio-me. Quero estar atenta e não sei. O rosto do Haquira que não voltarei a ver mistura-se, pelos sonhos dos meus dias e pelas vigílias das minhas noites, com os rostos de que tenho saudades. A voz espectral de Haquira traz dentro as vozes daqueles que quero abraçar. Os fios do telefone já não me bastam - e já nem existem. O abraço que não dei a Haquira, recebê-lo-ão outros que, assim, serão Haquira também. Os vivos são telas cubistas dos mortos que amámos - e os fragmentos que os compõem são unidos pelo nosso silêncio, pela nossa morte ambulante, impúdica, real, excessivamente forte para ser dita. As palavras que nos faltam nunca existem. Ou existem demasiado para que possamos pronunciá-las.

Ao longo dos últimos meses, enquanto, lá longe, no Brasil, em Ribeirão Preto, Haquira lutava silenciosamente contra a doença, eu espalhava fotografias dele pela minha casa. Como se esses dias luminosos de Berkeley, onde nos conhecemos, em 2005, ou de Los Angeles, que conheci ao seu lado, guiada por ele, nessa mesma época, pudessem voltar através do sortilégio da imagem.

A pilha de jornais e revistas que não tive tempo de ler tem no topo uma "Time" sobre as "cem pessoas mais influentes do mundo". Folheio-a, concluo que pelo menos 90 por cento das pessoas importantes são americanas. Ou transformaram-se em americanas.

Os restantes 10 por cento sonham ser americanos, para poderem ser ainda mais influentes. Haquira Osakabe não constaria sequer da lista das cem pessoas mais influentes do Brasil - até porque, tendo estudado com rigor e paixão (uma coisa não vai sem a outra) a obra de Fernando Pessoa, sabia que querer à força influenciar o mundo é não fazer nada para o transformar autenticamente.

Aliás, foi por saber este tipo de coisas, que são as da sabedoria visceral, que Haquira se interessou por Fernando Pessoa (sobre o qual escreveu um livro magnífico: Fernando Pessoa - Resposta à Decadência - e, através dele, por toda a literatura portuguesa, passada, presente e futura. E ensinou-a de uma forma que conduziu gerações sucessivas de jovens estudantes a dedicarem-se a ela.

Em Setembro passado, em São Paulo, o presidente da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, Paulo Motta de Oliveira, explicava-me como abandonara o curso de Física para se dedicar à Literatura, por causa de Haquira Osakabe e Maria Lúcia dal Farra. Maria Lúcia, além de professora e ensaísta, é também uma talentosa poeta, e o seu próximo livro, Palimpsestos, inclui um poema dedicado a Haquira, que nem sei se Haquira chegou a ler. Chama-se "Triunfo da Vida": "O fósforo das estrelas acende rápido a noite./ Quente é o aroma do jardim/ convocando o cio. (...) Cada qual/ (a seu modo)/ todos burlamos o desconforme da morte." Maria Lúcia, como Haquira, tem o dom da exactidão. Não há outro, e o seu nome original é amor.

Inês Pedrosa