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Expresso

Inês Pedrosa

Ganância bruta

"Alguém sabe onde é o Quinto Império?

Alguém sabe onde mora o Terceiro Mundo?"

"Morremos a Rir", canção de Slimmy

in Companhia das Índias, de Rui Reininho

Agora que a crise se tornou uma espécie de entidade divina, maiúscula, oficial, é um nunca acabar de meditações sobre "um outro modelo de desenvolvimento", mais solidário, multicultural (ou intercultural, que é mais moderno e interactivo) e não sei o quê. Ora se há coisa de que a História nos ensinou a desconfiar é dos "modelos" - espatifam sempre os seres humanos, que têm o gracioso vício de não serem modelares.

Acresce que todos os "modelos" políticos experimentados até hoje têm um ponto em comum, quando falham: a ganância dos poderosos. Há uns vinte anos, em vez de "outro modelo de desenvolvimento" falava-se de uma "terceira via para o socialismo", que emergiria das brumas, qual Fidel Castro travestido de Dom Sebastião, algures na América Latina. Fomos deixando de ouvir falar dessa "terceira via" à medida que se foi tornando mais difícil esconder o negócio da cocaína, a corrupção generalizada, as prisões, raptos, torturas - enfim, os métodos pouco ortodoxos utilizados pelos supostos revolucionários latino-americanos. Socialismo, já ninguém sabe bem o que seja. Os socialistas portugueses, por exemplo, acham que os direitos dos homossexuais podem ser varridos para debaixo do tapete das "questões fracturantes" - a nova versão das, também sempre secundarizadas como irrelevantes, "questões de género". Os comunistas, pelo menos, nem se dão ao trabalho de fazer de conta que são teoricamente solidários com a discriminação das pessoas que amam pessoas do mesmo sexo; na melhor das hipóteses, dirão, como o camarada Jerónimo, que têm pena desses seres desviantes. E quem inicia a presidência da União Europeia propondo a descriminalização universal da homossexualidade? O camarada Sarkozy, para desgosto das esquerdas.

Assim, já ninguém arrisca quartas ou quintas vias: entramos na abstracção do modelo "outro". A crise, porém, maiúscula e musculada, tem uma causa concreta, ao dispor do entendimento de qualquer gestor de economia doméstica (vulgo, dona de casa): dinheiro mal distribuído e gestão completamente descontrolada. Os banqueiros empanturraram-se com o dinheiro dos seus clientes, fizeram toda a espécie de negociatas ilegais em proveito próprio, e ninguém deu por isso. O Banco de Portugal, cujo governador está no pódio dos mais bem pagos governadores de bancos centrais do mundo, não conseguiu controlar nada. E agora? Agora pagam os do costume: a arraia-miúda do velho Fernão Lopes. E procuram convencer-nos de que não há outra alternativa - a não ser essa ideia mirífica de "mudar de modelo".

Ora, como é que neste "modelo" criado pela Europa Ocidental, vulgo capitalismo democrático, alguns países, designadamente os nórdicos, vicejaram?

Simples: com um controlo redistributivo que cria uma linha contínua entre os salários, dos mais baixos aos mais altos - em vez do fosso revoltante em que vivemos, por exemplo, em Portugal. A crise amainaria bastante se fosse decretada a diminuição, de 30 a 50 por cento, dos salários de topo da administração pública (muito superiores aos dos ministros, sempre tão vilipendiados). E o corte nos automóveis topo de gama (que nunca estão em crise), nos cartões de crédito e nas múltiplas alforrias de que beneficiam os já beneficiados. Isso sim, seria um Natal longo e eficaz - em vez da habitual demagogia dos jantarinhos, quermesses e livrinhos a favor dos pobrezinhos (e dos editores, que sempre beneficiam deste bodo aos pobres). Enquanto não se conseguir democratizar a crise, ela não se resolve - a raiva, ainda que surda e resignada, como sói ser a dos portugueses, não é um bom combustível para a produtividade. Antes pelo contrário.

Este estado de coisas favorece o descrédito na política e nos políticos, o que é perigosíssimo para a própria democracia - como a História, com veemência, tem provado. Tudo parece resumir-se hoje a arranjos de interesses - e os deputados que faltam às votações, os partidos políticos que gastam dinheiro em cartazes para difamar pessoas de outros partidos, os compadrios e cumplicidades entre os que enriquecem com negócios escuros e as mais altas figuras do Estado apenas agravam este sentimento geral de extorsão pública e impunidade que representa o funeral da Política.

A crise nunca é económica - a Economia, ou antes, a sua ausência, é apenas o sintoma de um mal maior, um cancro cultural profundo para o qual não há outro nome senão o de falta de respeito pelas pessoas. Falta de visão, de consciência, de sensibilidade, de educação. Tudo ao mesmo tempo. E ganância bruta.