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Expresso

Inês Pedrosa

A voz dos torturados

"EU SABIA que a minha salvação viria da Europa e que quanto mais estivesse ligado a ela, melhor. No mundo árabe os direitos humanos não existem e ninguém mexeu um dedo por mim. Devo tudo ao Ocidente, à piedade cristã e às ONGs internacionais." Quem assim fala, ao jornal espanhol "El País" (29.7.2007), é Ashraf Alhajuj, o médico de origem palestiniana que, tal como cinco enfermeiras búlgaras, viveu oito anos e meio no mais tenebroso dos infernos, depois de ter sido acusado, pelo Governo da Líbia, de ter inoculado o vírus da sida a mais de quatrocentas crianças. Oito anos e meio de torturas é inimaginável – mas aconteceu com estes inocentes. Que possam ter sido salvos, e ainda tenham alma para reconhecer e agradecer esta salvação, prova que a natureza humana tem tanta força para se superar como para se aviltar. Mas não podemos deixar de registar que, durante estes longos anos, quase não houve notícia desta infâmia. Porque era evidente, desde o início, que estes profissionais de saúde estrangeiros foram caçados como puros bodes-expiatórios da miséria que é o sistema de saúde líbio. É sabido que nenhum líbio com algum dinheiro corre o risco de entrar num hospital da Líbia – vai tratar-se aos hospitais da Tunísia.

E, no entanto, o caso chamado "das enfermeiras búlgaras" (o médico palestiniano ficava sempre para pé de página, talvez porque causasse embaraço lembrar que havia um árabe entre os torturados pelos árabes, ou talvez porque este árabe tinha pedido a nacionalidade búlgara) foi sempre, até na hora da libertação, tratado como um simples e irrelevante "caso humanitário" – não como a afrontosa mentira política que foi, e é. E quando, finalmente, se deu a libertação, o pomo de meditação e polémica passou a ser a intervenção de Cécilia Sarkozy no processo: Devia a mulher do Presidente francês ter-se metido nisto? Não terá usurpado as competências de sua excelência X ou Y? É caso para dizer: tenham dó.

Ashraf Alhajuj, hoje com 38 anos, conta o que lhe fizeram: depois de um interrogatório inicial, na cidade de Bengasi, a murro e a pontapé, enfiaram-no no porta-bagagens de um Mercedes, e assim o levaram, por 1.500 quilómetros, até Tripoli. Ali, encerraram-no numa cela com três cães violentos, por três dias. Depois enfiaram-no uma cela minúscula, sob a ameaça permanente da chamada "máquina mágica", uma espécie de telefone de onde saiam uns cabos eléctricos que os verdugos ligavam a qualquer parte do seu corpo, dos testículos aos pés ou à cabeça. Assim, nu, amarrado e debaixo de choques eléctricos, mostravam-lhe os passaportes das enfermeiras búlgaras para que contasse o que sabia delas, enquanto davam voltas à manivela da máquina eléctrica para aumentar a potência dos choques. A partir de 10 de Fevereiro de 2000, passaram a torturá-lo em conjunto, com as enfermeiras – nuas, como ele, penduradas pelos pulsos ou com as mãos presas atrás das costas. Violaram-no repetidamente e tentaram que três cães o violassem também. Mantiveram-no durante meses de joelhos, com as mãos atadas atrás das costas. Se deixava cair a cabeça, davam-lhe um pontapé. Quando ameaçaram violar as suas irmãs mais novas diante dele, assinou finalmente a declaração que lhe exigiam que assinasse, "confessando-se" cúmplice de um conluio entre os Estados Unidos e Israel para fazer alastrar a sida entre as crianças a troco de dinheiro. De pouco lhe serviu, aliás, a "confissão" – não foram buscar as suas irmãs (que, no entanto, foram expulsas da universidade – a família vive hoje, sob o estatuto dos refugiados políticos, na Holanda) mas continuaram a torturá-lo. "Era tudo um circo absurdo" – afirma – "Um circo para salvar os funcionários e responsáveis do Governo dos erros que provocaram a epidemia infantil de sida. Foi uma montagem da corrupção que destruiu aquele país." Alhajuj foi entretanto separado das enfermeiras búlgaras, todos foram condenados à morte – e passaram anos à espera. No seu caso, sem um país que o defendesse. "Eu era o mais débil, mas também o mais forte", diz Ashraf, "porque sou o único que fala árabe e os árabes de todo o mundo vão escutar-me dentro de pouco tempo, na sua própria língua." Ashraf Alhajuj sobreviveu para contar. Para que a Europa não esqueça o que se passa na Líbia.

Para que não se deixe embalar pelos aparentes actos de contrição de Khadafi – que não deixou de ser ditador e torturador; apenas negociou, taco a taco, o resgate destes seis reféns.

Raras vezes as vítimas de tortura têm a coragem de falar claramente do seu martírio. Querem esquecer. Não suportam a dúvida ou a suspeita nos olhos dos outros. Raras vezes as queremos ouvir. A voz das vítimas perturba a pré-programação de tolerância multicultural dos nossos neurónios de europeus mimados. Pode ser que o relato corajoso do médico Ashraf Alhajuj ajude a inverter as prioridades da velha Europa, e que ela passe a preocupar-se mais com a defesa dos direitos humanos do que com cargos e precedências. E que não esqueça que o ditador líbio continua a torturar pessoas que têm o azar supremo de não ter um passaporte europeu.

Inês Pedrosa