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Expresso

Inês Pedrosa

A vida em banda larga

O MINISTRO da Cultura brasileiro, Gilberto Gil, gastou o seu mês de férias a trabalhar intensamente – cantando. A fábula da formiga e da cigarra, vencedora do Prémio Internacional Aurea Mediocritas, levou-nos a acreditar que cantar não é trabalho. Na verdade, como disparava José Mário Branco, "a cantiga é uma arma". E continua a ser: uma arma contra o desalento, contra a cobardia, contra tudo aquilo que nos forra de lágrimas e resignação. Uma arma só na aparência convencional, difícil de montar, calibrar e polir. Uma arma de ressuscitar almas mortas – em princípio.

O "Banda Larga Tour" que Gilberto Gil trouxe à Europa lançou-se sobre as asas da ideia de partilha, e deixou-a voar destemidamente. Num mundo em que os espectáculos começam com interdições de filmar, fotografar ou gravar, é muito estimulante assistir a um concerto em que

o público é incentivado a fazer toda a espécie de registos – e a enviá-los depois para o "site" do artista (www.gilbertogil.com.br) onde esses registos serão, por sua vez, vistos e comentados, à escala do Globo. Cada espectáculo deste ciclo arranca com uma variação musical sobre o toque dos telemóveis – e é, todo ele, um comentário reflexivo sobre as questões da criatividade, da interactividade e da autonomia do autor. Gil reformula o tom e o modo das suas próprias canções (incluindo esse diamante inexcedível que é "Drão") e das canções dos outros (de Cartola a Bob Marley ou aos Beatles), remistura géneros, apropria-se do tradicional e transforma-o em som do futuro, pega na hipermodernidade da Internet e convoca a candura do primeiro samba brasileiro (de 1916), que traduzia o fascínio pela invenção do telefone. Em vez de se preocupar em antecipar a próxima moda, ocupa-se em encontrar os fios subtis que ligam tempos e vozes – por isso consegue soar a um presente-futuro autêntico, escapando aos tiques modernaços que tornam pateticamente arcaicos tantos buscadores do novo-novo. Terminado o tempo do espectáculo, as pessoas continuam com vontade de cantar, de dançar – e, acima de tudo, com vontade de exercitar a sua música particular.

Olha-se para o louco trajecto da "tournée" europeia de Gil e fica-se quase sem fôlego: num só mês, a Banda Larga exibiu-se em 17 cidades, traçando um ziguezague permanente entre países e regiões distantes. Veja-se a trepidante ponta final: Milão (27 de Julho), Cartagena (Espanha – 28 de Julho), Crotone (Itália – 31 de Julho), Zambujeira do Mar (2 de Agosto), Ponta Delgada (4 de Agosto), Marciac (França – 6 de Agosto) e Alcobaça (7 de Agosto). Porquê este desassossego? Porque os afazeres ministeriais do artista atrasaram a marcação da "tournée" – assim, teve de se adaptar às datas de festivais já marcados, e rodar entre fronteiras, incessantemente, muitas vezes em autocarros-cama. Gilda Mattoso, que foi a última mulher de Vinicius de Moraes e é uma fascinante contadora de histórias, excedeu em muito o seu trabalho de assessora de imprensa (ou "Assessora de Encrenca", expressão rigorosa que usa como título do livro que acaba de publicar no Brasil), escrevendo um diário de viagem absolutamente delicioso, num blogue criado no "site" de Gil, contando todos os pormenores curiosos deste périplo.

A "tournée" começou a 6 de Julho em Aveiro, e terminou a 7 de Agosto em Alcobaça. Duas cidades cosmopolitas e altivas, fora do habitual percurso Lisboa-Porto. O palco do grande concerto final foi colocado de frente para a deslumbrante fachada do Mosteiro de Santa Maria. Gilberto Gil começou por falar das memórias familiares que guarda da Alcobaça que existe na sua Bahia. Mais tarde evocaria a paixão de Pedro e Inês – e juro que às tantas os vislumbrei, libertando-se dos sumptuosos túmulos daquele amor proscrito, saindo do mosteiro iluminado, fantasmas cintilantes sambando no calor ecuménico da nossa Alcobaça, baiana por uma noite. Precisamente a noite do aniversário de Caetano Veloso, que, em "Verdade Tropical" (edição Quasi), confessa ser tamanha a importância de Gil na sua vida, que juntos constituem "uma espécie de entidade". Numa das mais belas páginas do livro, Caetano evoca o modo como a sua mãe o chamava para ver Gilberto Gil na televisão: "Caetano, venha ver o preto que você gosta." Escreve Caetano: "Eu sentia alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele – e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente."

No fim da noite, enquanto Gilda meditava como embalar as cerâmicas e livros oferecidos ao artista-ministro, antes do avião, de manhã cedo, em Lisboa ("Não, mala diplomática não dá, ele faz questão de não utilizar nenhum privilégio governamental quando anda em 'tournée'"), Gil explicava que se metera na política porque não aguentava mais "artista-live-aid", que faz "show" de beneficência para poder dormir descansado e dizer mal dos políticos. Mas como tem ele ainda energia para, aos 65 anos, passar o seu único mês de férias na estrada, cantando quase diariamente? Abre aquele sorriso demorado e total dos baianos, e diz: "Isso é a minha respiração. Aquilo que me permite viver o resto do ano."

Inês Pedrosa