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Expresso

Inês Pedrosa

A mulher que topou o 'chunga-chique'

NA CAPA, lê-se: "Alexandre O'Neill - Uma Biografia Literária". O adjectivo "literária" refere-se, com claríssima honestidade, à efabulação que qualquer biografia comporta - só nas estufas da literatice se entenderá "literário" como avesso a existencial. Maria Antónia Oliveira, a autora deste livro agora publicado (pela Dom Quixote) explica: "A verdade da vida do biografado é múltipla e contraditória. Se não assumir o seu lado quase ficcional, a tarefa do biógrafo arrisca-se a tornar-se um trabalho melancólico, cheio de tribulações e nunca acabado. É claro que ele não pode inventar factos, nem omiti-los. Mas possui a enorme liberdade de lhes dar forma. E a forma, todos o sabemos, é de tal maneira importante que faz com que, numa biografia, duas histórias se entrelacem: a do biografado, e a da relação do biógrafo com o biografado" (pág. 150). No nosso Portugalinho cheio de gente em bicos de pés, num ballet de plurais majestáticos e falsas modéstias a pedir vénia, esta franqueza corre o risco de escandalizar. Como O'Neill, Maria Antónia Oliveira despreza a provocação de salão, para atordoar os senhores - aliás, foi a transformação do surrealismo lisboeta num dispositivo de provocação gratuita que levou O'Neill a desistir dele. Como O'Neill, Maria Antónia busca, acima de tudo, a autenticidade das palavras - essa árdua exigência que nasce da fidelidade que nos devemos a nós mesmos, e que é a mais difícil de conseguir. Nascida 40 anos depois do seu biografado, em 1964, a autora recorreu à técnica do "sampler" - uma máquina utilizada na música electrónica para colar e remisturar vozes ou frases musicais já existentes - para contar a história deste poeta maior do século XX. Creio que O'Neill gostaria deste processo musical de citação e recriação, até porque a biógrafa manifesta, na sua utilização, um particular ouvido para o grão da voz e a expressividade particular de cada entrevistado (e são quase 50). Trabalhar sobre os discursos e memórias de outros, captar o essencial de cada voz com o seu ritmo e forma específicos, não é fácil - por isso a paráfrase totalitária toma tantas vezes conta da História e das histórias do quotidiano, e por isso, também, as pessoas têm tanto medo de falar para livros ou jornais. A recolha exaustiva das vozes dos amigos, conhecidos e familiares de Alexandre O'Neill (só uma das suas mulheres, Teresa Gouveia, não quis depor) resulta, no texto de Maria Antónia, numa espécie de partitura jazzística, em que o tema fundamental flutua sob uma infinitude de variantes e modulações. A prosa de Maria Antónia não é apenas fluida mas intensamente comunicante, límpida, orquestrando de uma forma inteligentíssima a informação, as histórias, a atmosfera do tempo e a sua própria visão sobre a obra do biografado - que, de resto, já analisara num livro acutilante que lhe valeu um prémio de ensaio, "A Tristeza Contentinha de Alexandre O'Neill" (Caminho, 1992).

As biografias exercem um poder de consolação - é também para isso que servem os livros. Apercebermo-nos de que o hoje consagrado Alexandre O'Neill chegou a andar à procura de João Gaspar Simões para lhe dar uma sova por causa de uma crítica terrível, ou que alguns dos seus queridos colegas escritores o desprezavam porque escrevia para "talk shows" de televisão, e que os críticos de televisão o zurziam, ajuda-nos a relativizar muito do ruído das nossas "videirunhas". Baptista-Bastos conta que o problema não era tanto o desdém pelo meio televisivo, mas o facto de se tratar da televisão do fascismo: "E ele veio-me com esta: 'A Sophia está proibida de escrever nos jornais e o pessoal anda lá a escrever!'" O poeta responsável por um dos mais belos poemas de amor de sempre - "Um Adeus Português", dedicado a uma amada estrangeira que a PIDE, instigada pela própria mãe de Alexandre, o proibiu de visitar - foi, antes e depois de tudo, um homem livre por dentro, num país que, fechando as portas ao exterior, agrilhoou também as mentalidades - mesmo as daqueles que se opunham politicamente à ditadura. O próprio Alexandre teve dificuldade em sair do esquema mental do marialvismo, que propunha uma moral sexual para os homens (a das sinceridades e entregas sucessivas) e outra para as mulheres (a da entrega única e dedicada). Assim, percorrermos a vida deste criativo "chunga-chique" (como ferinamente o define a biógrafa), coleccionador de ossos e inventor de neologismos, de pena lesta na denúncia das infâmias minimais-repetitivas do regime que obrigava as pessoas ao que definia como "modo funcionário de viver", é também seguirmos o trajecto do país. O'Neill torna-se assim a personagem principal de uma obra que excede em muito a sua vidinha, oferecendo-nos a história da Lisboa intelectual do século XX - uma narrativa envolvente, com punctum, como diria Barthes, ou sem bibelôs de trampa, como diria José Cardoso Pires.

Inês Pedrosa